quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Caso eu não volte hoje a noite - 2º Parte

Ei, Psiu... Se você quer saber da história completa, clica aqui ó.
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Sentia muita dor, mas menti estar ótima. Abri um belo sorriso e pedi para ir embora. Dormir, amamentar e ser cuidada dentro de um hospital, por mais estranho que seja, para mim era complicado. Me sentia esgotada e precisava realmente descansar em casa. Após a alta médica o combinado era ir para a casa da minha avó para que ela cuidasse de mim. Claramente, ela já sabia de toda a história do parto. Bati o pé em casa, passei a noite e logo pela manhã já peguei estrada para meu retiro de descanso que ficava 40 minutos aqui de BH, onde esperava passar pelo menos um mês de repouso.

Logo que cheguei, almocei normalmente, sentei, conversei e me esqueci da condição física em que me encontrava. De repente a dor. Muito forte. Fui deitar para descansar. Cometi o erro de deitar completamente na cama. Resultado: Uma dor incrivelmente forte do meu lado esquerdo, parecia uma facada toda vez que me movia. Estava em um quarto isolada e não conseguia me levantar, gritar por socorro, nem me mexer que a dor era alucinante. Comei a gemer e chorar por ajuda, reunia força e gritava. Até que alguém ouviu. Todos vieram me socorrer. Eu só gritava de dor e chorava. Luiza e Bernardo que estavam comigo, assustados. Creio nunca terem me visto tão frágil.
Sempre me fiz de forte. Mesmo na morte da minha mãe. Sempre foi a que aguentava tudo. Engolir a vaidade e se deixar ser cuidada e acolhida dói porque assumimos ali nossa limitação, a fraqueza. Queremos ser fortes o tempo todo, queremos caminhar sozinhas, mas às vezes não conseguimos. A verdade é que eu não teria dado nenhum passo a frente se não fosse pelo apoio das pessoas ao redor, o braço estendido para me levantar da cama, a ajuda até para banho e vestir roupa. Minha avó no auge dos seus 70 anos, praticamente me carregando. Que mulher! E eu querendo ser forte como ela, ali limitada, doente e a bem da verdade, eu só queria colo. Apenas colo e compreensão.
Minha outra tia também formada em enfermagem - sim, eu tenho sorte - me ajudou naquele momento, acalmou, aconselhou. Passei os dias com dor, à base de dipirona e comidinha de Vó. No 3º dia, comecei a passar mal. Muito mal. Um enjoo absurdo. Estávamos recebendo a visita do meu tio - sim, eu tenho a família enorme - . Comecei a vomitar, sem motivo algum. Minha avó querendo agradar saiu e comprou todas as frutas possíveis que encontrou , fez meu prato preferido no almoço, mas nada parava no meu estômago. Me sentia fraca, não conseguia andar de fraqueza. E precisava amamentar. Era questão de honra, de princípios, de amor e superação conseguir amamentar. Eu não abriria mão.

Lembro de grogue, pedir ajuda para sentar, os braços trêmulos da minha avó me pegando pela cintura, me sentando na cama e colocando o João no meu peito. Lembro de precisar de apoio para não cair, mesmo sentada, porque me faltava força até para segurar meu filho. Lembro de ver minha avó sair chorando do quarto. Lembro da mão dela pelos meus cabelos:
- Sheilinha, você quer ir para o hospital? Você vai acabar morrendo aqui enquanto amamenta seu filho.
- Sim, Vó. Eu quero.
Em 30 minutos estávamos pegando estrada novamente em direção ao hospital. Chegando, fui medicada, disseram ser normal e me passaram um remédio para dor mais forte que Dipirona. Nesta nova alta, formos para a casa da minha avó que fica aqui em BH mesmo. Lá descansei, amamentei, cuidei um pouco dos meninos. Fui melhorando, no 10º dia fui ao posto de saúde do bairro que ficava uns 4 quarteirões dali com João e Luiza. Bernardo já havia voltado para casa, não podia mais faltar a aula. Mauricio cuidava dos meninos e da casa sozinho enquanto minha avó cuidava de mim, da Luiza e João.

Chegando ao posto, minha pressão caiu e por um segundo quase desmaiei. Minha avó teve que ir correndo me socorrer porque eles só fariam qualquer procedimento se eu estivesse acompanhada.
Ao entrar na sala para retirada dos pontos, cadê os nós? Quando me aconselharam a voltar no hospital, uma crise de choro.
- Você está cansada, não é? - Perguntou a enfermeira.
- Exausta. Deixa eu chorar um pouquinho aqui, aproveitando que estou sozinha para minha Vó não ficar triste.
Ao sair, ela perguntou se tinha acontecido alguma coisa, e eu cai no choro novamente. O plano não funcionou.

Voltei ao hospital no dia seguinte. Lá tiraram uma parte dos pontos, porque realmente um dos nós havia sumido. Eu poderia viver com ele para sempre, numa boa.
O porém nisto tudo é que desde que voltei da primeira ida ao hospital por causa da primeira crise, ao trocarem o remédio de dor, percebi que sempre às 18h eu sentia frio, muito frio. Me deitava para descansar e acordava com a cama ensopada de suor. Cheguei a comentar dizendo que poderia ser febre. Reclamei inclusive com a equipe médica naquele dia. Não me levaram a sério. Pediram para eu fazer um exame de sangue para descobri o motivo porque não era relacionado à cirurgia. Fiz o exame. No dia seguinte, Mauricio pegaria o resultado.

Depois de uns dias, minha avó precisava voltar para casa e eu precisava retomar minha vida ou pelo menos parte dela. Luiza estava sofrendo muito pela falta do pai e dos irmãos. Chorava muito, todos os dias. Graças ao trabalho do Mauricio conseguimos uma permuta com um hotel pertinho da minha casa. Eu ficaria lá até me recuperar melhor. Antes, passei em uma farmácia. Queria provar que os médicos estavam errados. Comprei um termômetro e passei a medir de hora em hora minha temperatura.
Dois dias depois minha barriga havia quase desinchado completamente, exceto por um ovo do tamanho de um melão do lado esquerdo do meu abdômen. Era esquisito e quando tocava doía demais. Com o resultado do exame de sangue em mãos, tirei uma foto e enviei para minhas tias. O médico do trabalho delas, ao bater o olho disse para eu ir imediatamente para o hospital.
- Sheila, corre agora para o hospital. Não pode ser amanhã. Tem que ser agora.
Isso foi logo após o almoço. Me arrumei e fui. Ao chegar, mostrei minhas anotações. Todos os dias febre de 39ºC sempre no mesmo horário. Ela estava sendo camuflada pela dipirona que tomei por tanto tempo, mesmo quando ainda estava internada, por isso nunca foi diagnosticada. Deitada na maca, três médicas apertam aqui, apertam dali.
- Olha, você vai ter que ficar internada. Você provavelmente contraiu alguma bactéria no hospital e se não tivesse voltado rápido poderia parar na sua corrente sanguínea e causar a morte. Se você tivesse deixado para amanhã talvez não teria tanta sorte.

Mais uma crise de choro. Olhei para o João. Ele mal conhecia nossa casa. Meus filhos eu não via direito há 15 dias. Eles sofriam, Luiza chorava na escola e não queria fazer mais nada. Bernardo e Samuel também iam mal. Era coisa demais para o Maurico resolver. Cuidar de três crianças, a casa, os cachorros, esposa doente, um recém nascido e o trabalho que ele precisava manter para nos sustentar. Eu só queria voltar para casa.

- Liga para minha Vó, Zeca. Eu preciso dela aqui. - E ela voltou para cuidar de mim mais uma vez.
Fizeram um ultrassom, no aperta-espreme-puxa-repuxa do exame eu chorava de dor. Ao chegar no quarto e me sentar para amamentar o João, alguma coisa estourou. Minha cirurgia abriu completamente e todo liquido da infecção foi saindo. Os médicos pareciam felizes. Eu achei que ficaria mais uns dois dias tomando remedinho e voltaria para casa. Mas então começou a confusão: parte da equipe achava que eu precisar reabordar (termo fdp que eu aprendi lá)  a cirurgia para limpar por dentro, outra achava que só os antibióticos já fariam efeito. Lembrando que estava amamentando
e João tomando aquela bomba de remédio todos os dias através do meu leite acabou tendo reação, ficou todo empolado. Um dia de tarde, uma médica me falava para entrar em jejum que no dia seguinte ia fazer a cirurgia. Eu ficava 15, 16 horas em jejum, depois de muito brigar porque eu estava amamentando e o leite escasseando, outro médico vinha e dizia que não era necessária a cirurgia.

Fizeram isso por dois dias. Virou uma bagunça mesmo quando minha família inteira, diante do sofrimento que aquilo nos causava, veio ao hospital pedindo que resolvessem logo a situação.
Engraçado como somos frágeis, não é mesmo? Eu não tinha voz nenhuma. Não tinha força para brigar, falar mais nada. Então ainda bem que fizeram isso por mim.
Resolveram enfim abrir a cirurgia.
Ao voltar para o quarto, o susto: Minha barriga estava completamente aberta. Isso mesmo. Um palmo de corte aberto e eu viva.

No quarto, estava no horário de visitas, a enfermaria lotada. A equipe médica chega e me explica que por ser uma bactéria teriam que deixar aberta para que elas não proliferassem mais. Ok, né?
- Deixa eu tirar o curativo.
- Hãããaã?
- Preciso ver o curativo. - Disse a médica.
- Eu estou com muita dor - a anestesia estava passando e a dor era muito forte.
- Vamos aplicar uma injeção que vai melhorar. - Disse enquanto tirava as ataduras. Ela olhando, olhando. Até ali ok. - Ele deixou uma atadura dentro, né? - perguntou para um dos enfermeiros que acenou positivo. - Eu tenho que tirar.
- Como assim tirar? Que loucura! Você não pode tirar nada daí não. Eu vou voltar para o bloco cirúrgico?
- Não. Vai doer não. É só puxar. - Disse ela já enfiando a mão dentro da minha barriga.
Ela simplesmente enfiou a mão inteira dentro de mim e puxou a atadura. Eu gritei de dor, chorei, implorei. Minha avó assustada, o quarto lotado de crianças e pessoas visitando as outras mães recém paridas. Eu chorava de dor. A médica não satisfeita, ainda mandou a enfermeira me sentar na cama. Eu implorei para não sentar. Ela não se importou em me obrigar, minhas pernas ainda não respondiam. Ela aplicou sem meu consentimento a injeção que doeu mais do que a dor que eu sentia. Aí eu comecei a brigar:
- Que dor fdp! Era melhor ter ficado com a outra dor. Já não estou sofrendo o suficiente? Não quero mais tomar porra nenhuma!
Mediram minha febre. 35ºC. Alguma coisa estava errada. Neste ponto minha Vó tinha saído do quarto, trêmula por ter assistido a tudo àquilo. Ela ligara por o Mauricio:
- Maurício, você precisa vir aqui agora. A Sheila não está bem não. - E desligou.
Era uma sexta-feira, no domingo o Dia das Mães.
Sentada na cama sozinha, sinto algo quente, ao olhar para baixo, um mar de sangue. Corre-corre dos médicos. Eu estava tendo outra hemorragia. Me levaram ao bloco novamente. No corredor cruzo com minha avó com o João nos braços que berrava de fome. Não falaram nada para ela, simplesmente disseram que eu estava bem.
- Bem? Minha neta não está bem. Eu vejo que não está. Eu liguei para todo mundo. Daqui a pouco vocês terão que explicar para toda a família isso que vocês estão fazendo. Se não respeitam pelo menos minha velhice, terão que responder pelo que estão fazendo com ela.

Desta vez, nada de anestesia. Eles aplicaram apenas uma local e bastante morfina que só serviu para me deixar grogue. Enquanto um segurava minha perna, aquela mesma médica que havia tirado a atadura, com a ajuda de outra, abriu minha cirurgia com as mãos, deu três pontos na parte da hemorragia e ainda limpou todo o ferimento. Eu ali, grogue e imobilizada não podia fazer mais nada. Só sentir dor. E sinceramente, deu saudade das contrações do parto. Fechei meus olhos e visualizei o rostinho de cada filho meu, que saudade! Isso me manteve firme, me deu forças.

Ao voltar para quarto minha Avó contou das ligações que havia feito. Peguei o telefone e liguei para o Mauricio.
- Ele acha que eu morri, Vó.
Quando ele atendeu, o susto em ouvir minha voz me fez perceber que ele realmente achava isso. Ao chegar, desabou no choro.
- Achei que tinha perdido você. Fui buscar os meninos na escola, eles estavam com o presentinho de Dia das Mães. Estavam tão felizes. Como é que eu ia explicar que eles não poderiam mais entregar os presentes?

Em certo momento pedi que minha avó tirasse uma foto para que eu visse o corte.
- Você promete que não vai chorar?
- Vou não, Vó.
Ela tirou e me mostrou. Não consegui controlar. Chorei litros. Me senti mutilada. Naquele segundo fiz algo que até hoje me dói muito mais do que qualquer dor que tenha sentido. Por um segundo olhei para o João e pensei que se não tivesse engravidado dele, nada daquilo teria acontecido. Os outros meninos não estariam sofrendo, eu não teria passado tão perto da morte e trago tanto sofrimento a quem me ama. Naquele segundo fui um lixo de mãe.
Hoje eu me lembro daquilo e tento colocar na balança tudo o que passei para ter ele nos meus braços, ao olhar para corte hoje eu enxergo marcas de guerra, a batalha mais difícil que tive que lutar só para ter o tenho agora.

Depois de muita confusão por causa da forma que fui tratada. me deram alta com o corte aberto mesmo. Disseram só para eu cuidar bem dele e após alguns dias eles avaliariam se seria fechado cirurgicamente ou sozinho, dependendo da evolução. As enfermeiras, tão amáveis, as outras mães, todos que viram o que eu estava passando choraram de alegria. Eu não conseguia chorar de alegria, associei qualquer choro ao sofrimento. Eu só queria sorrir.

Eu e minha avó voltamos para o hotel. Passamos três dias lá, depois ela teve que voltar para casa. Eu voltei para a minha. A casa aquele mafuá. Os meninos carentes de mãe e minha culpa nível master. Porém feliz. Muito feliz. Dor? Nenhuma. Era muito estranho não sentir dor em um corte daquela proporção, mas realmente eu não sentia nada. Tinha que manter os antibióticos e evitar esforço físico.

Depois de alguns dias começou a saga "fecha - não fecha". Parte da equipe médica achando que deveria fechar a cirurgia, a outra achando que deveria ou esperar um prazo maior para cicatrização ou deixar que fechasse sozinho. Resolveram fechar de vez. E após quase 30 dias hospitalizada, entrei pela ultima vez no bloco cirúrgico. Pela ultima vez ouvi meu filho chorando de fome do lado de fora enquanto eu estava sendo operada. Sai de lá com mais uma cirurgia para me recuperar, mas esperançosa em nunca mais voltar.

Sim, eu sei. A história foi longa, talvez cansativa. Mas precisava contar. E isso foi um resumo do que realmente vivi. Foram dias tensos, tristes, difíceis. Pude ver quem realmente se importava, reavaliar parcerias, amizades, propósito de vida. Pude enfim viver meu puerpério, como qualquer mulher recém parida. Finalmente cuidei do meu bebê, dei banho, ensinei dever de casa aos outros enquanto amamentava. Fiz o almoço, dormi acompanhada e segura.

Alguns dias depois em uma crise de choro por causa do cansaço que cuidar de quatro filhos acarreta, disse para mim mesma:
- Eu não consigo, não aguento mais.  - E por um segundo um filme de tudo o que passei veio à mente. E naquele segundo me senti ridícula em pensar assim. Enxuguei as lágrimas certa que lá atrás quando eu achava que me faltava o parto normal para me sentir forte, eu não sabia o quanto eu já era invencível.


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