terça-feira, 20 de novembro de 2018

Caso eu não volte hoje a noite - 1º parte

O título eu escrevi quase um mês antes do parto. Passei todo o ultimo trimestre com um pulginha atrás da orelha. Sonhei ter morrido milhares de vezes, fiz meu marido ouvir o velho discurso "caso alguma coisa aconteça". Listei como gostaria que meus filhos fossem criados, toda a ideologia e ideias loucas que me regem, me certifiquei até que ele aprenderia a como prender o cabelo da Luiza, ensinei o básico da cozinha, certa que no fundo, caso alguma coisa acontecesse, eles viveriam de miojo, empanados de frango e pizza congelada. Expliquei que gostaria que eles soubessem como outras crianças viviam, que fizessem trabalho voluntário para ajudar quem precisa, pedi que não afastasse o resto da minha família da vida deles, mas que em nenhum momento deixasse que eles tomassem as rédeas. Meus filhos, eram na verdade, nossos! Só nossos! Frutos de muito amor, sacrifício e uma esperança profunda de que tudo daria certo. Luta diária nossa para alimentá-los, cuidar, ensinar, regar e vê-las crescer não apenas em estatura, mas em caráter. Que eles fossem muito melhor que nós fomos e pelarmor de Deus, meu bem - eu disse -, não deixe que eles esqueçam de mim, conte como nos conhecemos, como fomos loucos em "casar" em apenas um mês de relacionamento mas não encoraje isso, certa que no fundo, filhos nunca ouvem as recomendações , as letrinhas miúdas das embalagens ou a bula dos remédios. Conte minhas manias e mostre tudo o que escrevi para eles verem o quanto foram amados e sonhados.

As semanas seguintes foram de total solidão. De um dia para outro, todos sumiram, alguns por coincidência, a maioria por conveniência. Já devo ter dito o quanto sou prática, mas nunca havia percebido tão claramente como naqueles dias. E após um tempo, eu realmente me lembrei o quanto era amada e que amor consiste em estar por perto quando mais se precisa. No dia anterior ao parto, vi reaparecer quem de verdade se importava.Quando finalmente havia organizado tudo para o parto, desde lugar seguro para os outros ficarem enquanto estou no hospital até roupinhas e supermercado, pensei "enfim posso parir em paz" e dormi por uma tarde inteira feliz por conseguir descansar depois de tanto tempo aflita. Quando as contrações começaram, eu calmamente anotei cada uma na nota fiscal das ultimas fraldas compradas ali jogadas ao lado da minha cama e pensei "por enquanto está tranquilo". Quando a bolsa estourou, meu primeiro pensamento foi "graças a Deus acabou" me referindo à gestação estressante que havia passado, o segundo ridiculamente foi "não quero sujar o lençol".

Me levantei com uma calma surreal e simplesmente disse que ficaria tudo bem. E eu sentia que tudo ficaria bem, uma paz me invadiu e o termo "colocar na mãos de Deus" fez sentido. Se fosse para dar algo errado, não estava nas minhas mãos decidir o caminho. Fui ao hospital com muitas dores, mas em paz. Tranquila e segura. Todo o procedimento inicial foi sozinha. Me lembrei da minha mãe e do quanto ela me fazia falta nestas horas de fragilidade. Tentaram parar as contrações, uma quarta gestação, após três cesáreas seria uma loucura que eu não estava disposta a realizar. Eu não precisava provar nada para ninguém. Ter um parto normal a todo custo, não me interessava. Eu queria parir e voltar para casa. Depois de comprimidos para sessar as contrações e uma seringa enorme de buscopam, tudo continuou exatamente como estava e piorando, para espanto dos médicos. João, nome que mantive em segredo até o parto, queria nascer e bem rápido. Correram comigo para a sala de cirurgia. Não dava tempo para mais nada. Minha pressão chegou a 3 por 6 e eu ensaiei um desmaio. As contrações apesar de dolorosas, não me incomodava, eu sabia que fazia parte, eu parecia anestesiada mentalmente, só meu corpo respondia e eu deixei ele me guiar, seja qual fosse o caminho.
João estava encaixado e saindo, que belo parto normal eu teria se tivesse feito escolhas melhores no passado! E como eu lamentei por isso! Comentei dias atrás que queria muito ter um parto normal, que  sentia, após tantas coisas ruins acontecerem na minha vida e eu ter superado, que só faltava aquilo para me sentir invencível. Mal sabia que o que viria me faria sim, invencível. Que o caminho que trilhei até aqui já me faz forte o suficiente para recomeçar não importa quantas vezes eu caia.

O anestesista teve dificuldade de encontrar brecha entra as contrações que vinham de 15 em 15 segundos (sim, eu contei). Após a anestesia, não havia mais dor física, só a aflição de não saber o que estava acontecendo. Tiveram dificuldades em tirar o João. De repente, choro. Logo depois gargalhadas.
- O que aconteceu? - perguntei para minha tia que me acompanhava.
- Ele fez xixi no médico.
Colocaram ele no meio peito nu, contato pele a pele e por incrível que pareça, ele já caçou leite. Foi igual a uma minhoquinha procurando onde estava. Achou e mamou.
Tudo corria normalmente. Fecharam a cirurgia e na hora no teste para saber se havia hemorragia, o sangue brotou e escorreu pela minha barriga.

Saiu um enfermeiro apressado para a sala ao lado e voltou com outra equipe médica que eu viria saber mais tarde, era o chefe da equipe médica que coincidentemente fazia outro parto ali pertinho ao lado. Ele atestou que era realmente uma hemorragia. Reabriram às pressas e ali começou a saga de procurar o foco. João que mamava tranquilo teve que ser tirado dali.

Fui me sentindo fraca e com sono. Minha vontade era de dormir, mesmo que não voltasse mais. Estava tão em paz. Tão tranquila. Eu não tinha medo nenhum do que viria a seguir, seja o que fosse. Fechei os olhos e fiquei quietinha. Abri de repente:
- Di, só quero que você saiba que os meninos tem que ficar com o Mauricio, tá?
- Quê isso, Sheila!? Vai acontecer nada não.
- Tá bom. Mas caso aconteça, quero que eles fiquem com ele. Não quero briga. Eles são meus e do Mauricio.

Minha tia, formada em enfermagem, acompanhava tudo e pelos olhos dela vi que a coisa não estava boa para meu lado. Ela estava pálida enquanto tentava ninar o João. Me contou mais tarde que eles tiraram meus órgãos um a um e colocaram em cima da minha barriga. Meu útero estava dilacerado. Costuraram como se fosse uma colcha de retalhos. Descobriram que o foco estava nas trompas. Tiraram as duas e me mostraram. Tudo estava controlado enfim. A anestesia estava passando e os últimos pontos que tomei foram a frio mesmo, mas estava feliz por ter acabado.

Fui para o quarto com muita dor. Saí após dois dias de internação. Depois de toda a complicação decidi ir descansar na casa da minha avó que morria de preocupação e já estava cuidando do Bernardo e Luiza para mim. Mal sabia que muita coisa ainda estava por vir.
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Para não ficar muito longo, decidi dividir em dois textos. No próximo eu conto sobre as complicações do pós cirúrgico que me levou a ficar quase um mês internada e a mais três cirurgias, entre idas e vindas ao hospital.
Então clica aqui ó para ler.

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