quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Ler é uma forma de ensinar a tolerância


“Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes a vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém à morte. Pois mesmo os mais sábios não conseguem  ver os dois lados.”

É assim que o Gandalf responde a Frodo, em o Senhor dos Anéis, quando este diz que desejava a morte de Gollum. O inimigo que o perseguia em busca do Um Anel era obviamente um perigo, a solução mais fácil para resolver aquele problema imediato que viviam seria matá-lo, mas nem sempre a solução mais fácil é a mais correta.

Tive contato com a trilogia de O Senhor dos Anéis, de autoria de J.R.R. Tolkien, durante a minha adolescência, muitas das minhas amizades nasceram desse interesse, e os livros foram transformados em filmes anos depois. Esse diálogo entre Gandalf e Frodo (respectivamente, o mago sábio que orienta o grupo e o protagonista da obra) é uma das minhas passagens favoritas e sempre a evoco em minha mente quando me deparo com debates sobre pena de morte ou afirmações como “bandido bom é bandido morto”.

No momento atual, em que vivemos um crescimento da intolerância e da violência entre defensores de ideologias opostas, todos nós ficamos preocupados com o futuro, especialmente quando somos pais. Sempre cresci acreditando que meus filhos iriam viver em um mundo mais harmônico e tolerante. Hoje já não tenho tanta certeza, mas a esperança ainda pode estar na leitura e nas histórias.

Um estudo feito com adolescentes na itália mostrou que leitores de Harry Potter tendem a se mostrar mais tolerantes frente aos problemas vividos por grupos socialmente desvalorizados (as erroneamente rotuladas minorias). Ler sobre o conflito da sociedade dos magos, em que um grupo, liderado por Valdemort, busca estabelecer uma lógica de castas, na qual “trouxas” (não magos) e os “sangue-ruim” (magos nascidos de pais trouxas) estariam subordinados aos magos de “sangue-puro” torna crianças e adolescentes mais sensíveis a preconceitos semelhantes no mundo real.

O estudo foi feito em dois momentos. No primeiro, um grupo de adolescentes que não tinha conhecimento da narrativa foi submetido a aulas e leituras sobre a cultura Potter. Em debates posteriores, esse grupo mostrou-se mais tolerante em reflexões sobre homossexualidade, imigração e feminismo, quando comparado a grupos de alunos de origem semelhante que não haviam passado por esse processo. No segundo momento, um questionário foi aplicado a 117 estudantes italianos, com perguntas sobre leitura de livros do Harry Potter e também temas relacionados a gênero e imigração. Novamente, aqueles leitores dos livros de J.K. Rolling mostraram-se mais tolerantes que os demais.

Como todos, eu já sabia da importância da leitura para tantas outras coisas, mas agora, quando me perguntarem o que fazer para tornar nossos filhos mais tolerantes, a minha resposta será “ofereça muitos livros e conte-lhes histórias”. Assim como Tolkien foi fundamental em minha formação e reflexões sobre a pena de morte e vingança (não posso esquecer também da influência do Seu Madruga nessa área), espero oferecer muita leitura às minhas filhas para que elas possam desenvolver a empatia e a compreensão da realidade de outros grupos e culturas.


NOTA: O Marcelo fez um episódio falando exatamente sobre isso. Clica aqui ó e ouça! 

MARCELO CAFIERO
É um pai medíocre das gêmeas Alice e Helena, professor de língua portuguesa e produtor dos podcasts Entre Fraldas e Hiperativo.

Um comentário:

  1. Interessante ler esse texto e pensar em minhas filhas que me surpreende com a sensibilidade com que falta das minorias. E coincidenccoou não, são devoradoras de livros e fãs de Harry Potter.

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