quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A inocência perdida, junto com os significados


“The sorrow grows bigger when the sorrow is denied. I, only, know my mind. I am mine.”

É preciso ser inteiro, me foi dito. Ser um comigo mesmo. “Eu sou meu”, diz a música. Mas é muito difícil olhar para si e se reconhecer finalmente como é. É preciso dedicar um tempo a ser apenas triste, me disseram. “O sofrimento cresce, quando o sofrimento é negado”. Entretanto é sedutor buscar o alívio. É preciso assumir que sou o único motor de meus próprios resultados, me disseram. “Eu, somente, conheço a minha mente”. Mas as vezes parece que somos só passageiros na nave de nossas próprias vidas. E no processo de viver, tomamos decisões que nos excluem, aceitamos fatos que gostaríamos fossem falsos e aprendemos a existir lado a lado com a frustração.

Quando e como isso acontece? Veja só a criança. Ela é toda desejos. Ela só quer o quer e pega e se não deixam pegar ela grita. Ela chora e não se importa. Ela muda de ideia e está tudo bem. Em algum momento a gente inventa os limites, as fronteiras e começa a dizer não pra nós mesmos. A gente ainda chama isso de bom senso. Criamos um mundo do mutuamente exclusivo, do certo e do errado, uma prisão feita de decisões e certezas fingidas. Achamos termos aprendido a controlar nossos sentimentos, só para virarmos escravos das emoções. Criamos toda uma conjuntura que nos faz entristecer, depois criamos músicas pra combinar com a tristeza. E nos perguntamos: quando é que eu vou crescer? E na verdade o segredo era não ter nunca crescido.

E a esse ser malformado, imaturo e profundamente incompetente, quando pronto, nós damos o nome de pai. E colocamos nas mãos dele a missão de ensinar uma criança a deixar de ser criança, perpetuando esse ciclo criminoso, para continuar enchendo o mundo de garrafas de álcool, comprimidos para dormir e letras de blues. Não chore! Diz o homem que chora escondido todo dia. Deixe de besteiras! Diz o maior dos idiotas. Não diga mentiras! Diz o cara que não se lembra mais o que é ser honesto consigo mesmo. Você tem que ser alguém na vida! Diz o coitado que se sente um fracasso, mas faz cara de sucesso. E para ser o exemplo que quer dar, mas que na verdade não é, esse pobre homem finge ser o exemplo, ignorando sua própria essência, soterrando ela com múltiplos personagens, cada um mais elaborado e glamuroso. O grande profissional! O popular! O presidente da resenha! O intelectual! Todas frágeis construções que não sobrevivem ao segundo exame.

Quem foi que disse que para sermos bons pais temos que ser perfeitos, exemplares, heróis? Que história é essa de modelo moral, de “ponte sobre águas turbulentas” como cantou o infeliz e torturado Elvis? Porque não podemos apenas sermos humanos e mostrarmos aos nossos filhos que podem ser humanos também? Não há nada de mal em darmos apenas amor e deixarmos que eles saibam que, dentre todas as imperfeições, nada é mais imperfeito que o amor. Nunca se falha tanto, quando se age por amor e não há outra maneira segura de se agir nesse mundo. Não há maneira segura, nem fácil, nem certeira de se agir nesse mundo. Acho que deveríamos valorizar as falhas tanto como valorizamos as virtudes, quando ensinamos aos nossos filhos a lidar com esse mundo estranho em que vivemos. Eles precisam saber que vai doer. Eles têm que aprender a valorizar a capacidade tão humana de chorar, tal como valorizam o sorrir. Saber que vão falhar, mesmo tentando acertar e vão se arrepender e tentar de novo e errar de novo. Temos que aprender a ensinar sobre os sentimentos e isso significa não classifica-los bons ou ruins. Sentimentos são sentimentos e pronto. Todos eles vão tomar as rédeas da vida, em um momento ou outro e não tem nada de mal nisso.

No nosso mundo “adulto” o sorriso é como um certificado, uma chave mestra, um passe para o clube. Mas a melancolia recebe imediatamente o diagnóstico de problema. Fique triste por uma semana e todos os teus queridos farão de tudo para te tirar daquela tristeza. Porque ficar triste é ruim, segundo decretado, assim nos tornamos homens que escondem sua tristeza e fingem seus sorrisos. E ao virarmos as costas para essa parte tão importante de nossa personalidade, nos tornando pessoas aleijadas emocionalmente. E não se engane isso só torna a paternidade mais difícil. Seriamos pais muito melhores se fossemos completos. Se pudermos ser contentes conosco, assim como somos, teremos muito mais chances de ajudar aos nossos pequenos, de prepara-los ao menos.

Me disseram também que as vezes eu escrevo endereçando a mim mesmo. E isso não poderia ser uma verdade maior, já que neste momento não há exercício de hipocrisia mais descabido que estas linhas. Eu sou o cara que manda o filho mais novo parar de chorar, ainda com os olhos inchados. Sou o cara que da lição de moral ao mais velho enquanto tenta entender o que aconteceu com a minha vida. Sou o cara que criou centenas de personagens enquanto engordava um monstro preso no porão. Sou o cara dos fones de ouvido que só tocam blue moods. Então, por falta de moral para conselhos, revelo aqui apenas um desejo sincero: O de “desamadurecer”. Quero voltar a olhar para minhas emoções sem sentir medo delas, como fazia quando era criança, como meu filho pequenino ainda faz. E ao fazer isso, me tornar capaz de ensinar pra ele a nunca cair na armadilha desse medo.

“And the meanings it gets left behind. All the innocence lost at one time. Significancebehindtheeyes. There's no needtohide.”




CARLOS RESENDE
Engenheiro, tecnologista de materiais para construção, sou marido da Josy, padrasto do Bruno e Pai do Heitor. Todas estas funções me pegaram de surpresa e tive que me virar para fazer jus a cada uma delas. Principalmente esta última. Cara! Como é difícil esse negócio de ser Pai! Não posso dizer que não sabia, mas posso dizer que tem muita coisa que ainda não sei sobre isso. Mas eu vou acabar aprendendo, uma por uma, todas as manhas dessa profissão / sacerdócio / vício / pesada... E aí conto elas aqui. Por falar nisso, que legal esse espaço, não é? Finalmente um lugar para os Papais, entre tantos lugares para as Mamães. A gente se vê por aí!

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