sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Que venha!


Desde criança escuto todos a minha volta falarem com as futuras mamães e futuros papais: “que venha com saúde!” “É a cara do pai!” e alguém sempre responde “o importante é ter saúde”. É assim desde sempre, virando até aqueles bordões que a gente repete meio que sem perceber o que está dizendo.

Como todo pai, escutei inúmeras vezes esse bordão durante a nossa gravidez, e respondia quase sempre com um “obrigado” ou um “amém”. Então, Alice e Helena sofreram a STFF, ou Síndrome da Transfusão Feto Fetal, quando bebês gemelares, em uma única placenta, recebem alimentação de maneira desequilibrada. Alice quase não recebia nada, enquanto a Helena estava sobrecarrecada. Elas nasceram com 28 semanas e, em consequência disso, sem saúde.

Durante o tempo que elas passaram na UTI - Helena por dois meses e Alice por quatro -, passaram por muitos procedimentos para garantir sua sobrevivência. Ali, no dia a dia de pais de UTI presenciamos vitórias e tristezas de vários pais. Vimos um pai e uma mãe conversando na secretaria sobre os procedimentos para a retirada do corpo da criança que não havia resistido. Vimos a sala da UTI ser invadida por médicos e enfermeiros atendendo a um bebê em parada respiratória e, apesar dos esforços, a criança não resistiu. E comecei a pensar sobre esse bordão… “que venha com saúde”.

Minha convicção só foi solidificada no dia em que, às seis horas da manhã, minha esposa atende o telefone e a ouço perguntando aos prantos… “A Alice?...” Os médicos ligaram, disseram que ela estava instável, que deveríamos ir. Não me lembro sobre o que conversamos no caminho, mal lembro de como chegamos ao hospital, mas lembro bem do momento em que chegamos e a Dra Simone nos disse: “Agora ela está bem, está estável”. Todo pai de UTI sabe que “estável” é um estado transitório. Ela estava sedada, recebendo mais de dez tipos de medicações diferentes. Naquele dia, à noite voltamos para casa sem a certeza de que a veríamos no dia seguinte.

Ali, naquele momento, pensei… “e se não vier com saúde? E se todos esses bordões repetidos a exaustão não se concretizarem? O que eu, o que nós pais podemos fazer? Nada! Iremos amar menos nossos filhos? Claro que não! Iremos nos dedicar menos a fazer com que tenham qualidade de vida? Não!”

Alice não tem saúde, hoje ela tem paralisia cerebral, displasia pulmonar e Síndrome de West (um tipo raro e grave de epilepsia). Todas as vezes em que enfrentamos o cansaço de rotinas de médicos, exames, terapias e remédios me lembro do que dissemos a ela quando nos despedimos naquela noite: “Filha, você fica conosco se quiser, mas saiba que, se ficar, nós vamos te amar muito e vamos cuidar de você do jeito que você é!”



MARCELO CAFIERO
É um pai medíocre das gêmeas Alice e Helena, professor de língua portuguesa e produtor dos podcasts Entre Fraldas e Hiperativo.

Um comentário:

  1. Você disse bem: Que venha. E que receba cuidados e amor! Um depoimento cheio de sentimento que nos obriga a repensar as palavras e bordões. Parabéns por mais esse texto.

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