quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Cinco abraços pra sarar


Calma, papai. Lembre-se da palestra da Cecília. Ele é só uma criança, e você um homem maduro. Tem tudo sob controle, certo?
_ Buaaaaaaaaaaá!
Ele só quer se comunicar. Fale com ele. Procure um lugar adequado, estabeleça uma posição na mesma altura dele, identifique o sentimento, explore o sentimento junto com ele, obtenham juntos uma alternativa...
_Nãaaaaaaaaaao! Eu queeeeeero!
Puuuut... qu... pa...! Cinquenta centavos! Eram só cinquenta cen-ta-vos! Vá já pro teu quarto! Não quero ouvir mais nem um pio! Ai de tu se não parar de chorar agora!
Os dias difíceis são, realmente, difíceis. Parece que nada lhes bastam, que tudo tem gosto ruim e que eles simplesmente odeiam tudo ou querem tudo o que não pode. E, geralmente, coincide com aqueles momentos onde você não está em condições psicológicas ou sem um miligrama de paciência para gastar. Você só quer dar um soco em alguma coisa dura, gritar com alguém ou sair correndo até por os pulmões pra fora. Deve haver um elo mental entre a gente: “Hoje papai está arretado, então vou fazer uma pirraça épica”. Já perceberam que, em termos de intensidade, volume e timbre, a risada de uma criança pequena é similar ao choro desta mesma criança? Então, porque será que a primeira é tão prazerosa que inunda a internet de vídeos com as mais fofas e contagiantes gargalhadas, enquanto o segundo é tão irritante, mas tão irritante, que inspira nazistas a abrirem cafeterias “ChildFree”? (Beijo pra Fabíola, pela cafeteria mais ChildFriendly da minha cidade).
Mas a Cecília tem toda a razão. Imagine só, o caleidoscópio de emoções em formação, rodopiando dentro da cabecinha deles? Pense no caos que é lidar com sentimentos plenamente desenvolvidos e imagine como seria se todos eles, de repente, ocorressem ao mesmo tempo dentro de ti e em cada um faltasse uma parte, ainda inacabada. Nada se encaixa. Será que, ao chorar, gritar e espernear, não estariam eles dando uma demonstração de que sabem o jeito certo de lidar com os sentimentos? Não seríamos nós os verdadeiros imaturos, que guardamos tudo trancado, cozinhando nossas entranhas? A vida em sociedade nos cobra o tempo todo controlar as emoções, demonizar algumas delas, tentar muda-las, esconde-las, freá-las. Não estaríamos todos equivocados em relação aos conceitos de inteligência emocional? O certo é que, em algum momento, nós abandonamos a intensidade extrovertida das pirraças e adotamos, pouco a pouco, a implosão dolorosa dos falsos sorrisos.
Independente dos aspectos filosóficos, o fato é que precisamos aprender a lidar com as birras. Eu, acima de todos os papais da face da Terra, preciso aprender a lidar com as birras. Então, de repente, eu tive uma ideia bem legal. Desde os primeiros meses, um dos maiores prazeres da paternagem, para mim, são as brincadeirinhas inventadas. E nós temos tantas! Temos a musiquinha do filme “Tubraão”, que termina em cócegas com a barba. Temos o “dedossauro” e o “biliscodátilo”. Jogar água na cara na hora do banho. Cabeça “Rubble” joelho e pé (ele tem uma cuequinha com a figura do personagem chamado Rubble). Enfim, todo mês, pelo menos, inventamos uma brincadeira nova, baseada em algo extremamente ridículo e ridiculamente divertido. A minha favorita, inclusive, foi uma que ele mesmo inventou, aos dois anos de idade. Acreditam numa coisa dessas? Ela funciona assim:

_ Agora eu sou o papai e você é o Heitor, tá?
_ Ta legal, “Papai”!

Aí ele escova meus dentes, penteia meu cabelo, corta as minhas unhas... fiquei tão emocionado na primeira vez que ele propôs isso, porque era o jeito dele meio que de agradecer os cuidados que eu dedico para ele, sabe? Como um reconhecimento carinhoso, lúdico e espontâneo. Lembrei dessa brincadeira tão singela e verdadeira, durante um episódio memorável de birra, daquelas que você nem entendo o que diabos a criança quer. E pensei com meus botões: Será que posso inventar uma brincadeira para os momentos de pirraça?

_ Heitor, cê não tá feliz não, tá?
_ Não! Eu tô Tliste!
_ Você quer cinco abraços pra sarar?
_ (...) Quero!
Um, dois, três, quatro, cinco.
_ Sarou?
_ Sarei.
_ Ta feliz agora?
_ Tô!
E simplesmente saiu correndo, perseguindo uma coisa qualquer, como se absolutamente nada estivesse acontecendo. Foi como descobrir um novo elemento para a tabela de Mendelev, um novo campo escalar do universo primordial, um superpoder mutante que estava latente. Deste dia em diante, 80 a 90 por cento de todas as birras a gente resolve assim, da mesma maneira, com a brincadeira dos “cinco abraços pra sarar”. No fundo, é só isso que ele sempre quis! Um momento de atenção, de carinho, de conexão e proximidade com alguém. Para se sentir amparado, protegido, amado, compreendido. E não queremos isso todos nós?
Nossos corações são sempre tão pesados, com todas aquelas mágoas antigas, todas as lembranças que queríamos esquecer ou voltar a viver. Tantos sentimentos conflitantes. Eu, por exemplo, sou um adepto do silêncio e da fachada. Costumo vender para o mundo uma realidade distorcida de mim mesmo, enquanto tento conter no coração uma estrela inteira. De vez em quando, entretanto, dou uma breve vacilada, sabe? Daquelas em que você se dá 30 segundos, senta no chão, coloca o rosto entre as mãos e fecha os olhos. Então, sem que eu sequer tivesse percebido que ele estava por perto, meu filho põe a mão no meu ombro, depois segura as minhas bochechas e pergunta:

_ Papai, você tatliste?
_ Tô sim, filhote.
_ Cê quer cinco abraços pra sarar?

Depois dos abraços, meio desajeitados, quando ele pergunta se eu sarei, respondo com um sexto abraço, daqueles bem apertados e bem demorados. Um abraço de gratidão, porque aqueles cinco abraços saram de verdade. Agora, eu entendo.



CARLOS RESENDE
Engenheiro, tecnologista de materiais para construção, sou marido da Josy, padrasto do Bruno e Pai do Heitor. Todas estas funções me pegaram de surpresa e tive que me virar para fazer jus a cada uma delas. Principalmente esta última. Cara! Como é difícil esse negócio de ser Pai! Não posso dizer que não sabia, mas posso dizer que tem muita coisa que ainda não sei sobre isso. Mas eu vou acabar aprendendo, uma por uma, todas as manhas dessa profissão / sacerdócio / vício / pesada... E aí conto elas aqui. Por falar nisso, que legal esse espaço, não é? Finalmente um lugar para os Papais, entre tantos lugares para as Mamães. A gente se vê por aí!

Nenhum comentário:

Postar um comentário