terça-feira, 29 de maio de 2018

Para o riso, para a memória, para a saudade




“A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre...”
Boneca Emília, do Sítio do Pica-Pau Amarelo

Tente piscar pra traz por um momento. Vai piscando até se ver correndo com os pés descalços no quintal da primeira casa de que se lembra, atrás do primeiro amigo de que se recorda. Até um tempo em que o teu mundo inteiro tinha só uns poucos metros quadrados, onde você conhecia cada buraquinho de chão com tesouros escondidos. Um tempo em que a vida era simples e éramos todos apenas filhos. Tenho certeza de que se você voltar tempo o suficiente, acabará reencontrando o teu brinquedo predileto. Tua boneca com vestido azul, tua coleção de bolinhas de gude, teu carrinho de rolimãs ou o jogo de futebol de botão. Aquele cartucho velho do Mário. A bicicleta com cestinha. O robozinho de pilha que piscava colorido. Quando você lembrar, será o melhor sorriso do teu dia.

Sorri assim que o ví. Lá estava ele, como novo, dentro de um balcão de vidro. Meu brinquedo favorito! Eu tinha pouco mais que a idade do meu filho, quando o vira pela última vez. Foi como se o tempo derretesse e, numa piscadela só, eu me vi criança. Segurei meu garotinho pela mão, ainda arredio de ir brincar no pátio com seus iguais, e andei por prateleiras inteiras feitas só de lembranças. Sempre achei que o tempo é nossa moeda de mais alto valor e que os únicos bens valiosos o suficiente, para merecerem ser comprados com o tempo, são as lembranças. Se assim é, então lá estava um pequeno tesouro, guardado naquele casarão, bem ali na Afonso Pena, bem do lado da minha padaria favorita. Fotografei o tempo todo, ciente de que nenhuma daquelas fotos precisaria de legenda.



Como é poderosa a nossa relação com o brinquedo. Um amplificador da imaginação, que em uma mente incapaz de permanecer entediada, ganha vida e cresce até ficar maior que nós mesmos. Basta observar nossas crianças por um momento, para perceber essa maravilhosa transformação simbiótica entre a criança e o objeto. O Museu dos brinquedos de Belo Horizonte existe justamente para celebrar essa amizade: Um museu para a alegria das manhãs, para o riso, para a memória, para a saudade, como é descrito no website. A coleção é rica em peças do século XX, mas também leva o visitante em uma viajem interativa pelas origens de cada brinquedo, até esbarrar nos dias atuais.

Entre os exemplares mais reconhecíveis, estão lendas como o Topo Gigio, Os Playmobil, as garrafinhas da Coca Cola e o console Atari. Bonecos baseadas em sucessos da TV e Cinema, como Família Dinossauros e ET. Há uma sala dedicada a história dos brinquedos, onde se pode localizar geograficamente, no mundo, cada brincadeira. Uma incrível coleção de bonecas antigas, onde é bem difícil não reconhecer a que você já chamou de sua. E muitos ambientes interativos onde os pequenos podem brincar de verdade.



Todos os dias têm visitas guiadas e é bem comum esbarrar com uma excursão escolar. Aos fins de semana tem brincadeiras tradicionais para os pequenos, em uma área externa bem ampla e equipada, além de oficinas de construção de brinquedos artesanais. Tudo acompanhado por um time de monitores motivados, cuidadosos e especialmente atenciosos com os menorzinhos. É possível, também, fazer a festinha de aniversário lá, por valores bastante atraentes.

Me chamou particularmente a atenção o atendimento de toda a equipe, a atenção que se recebe durante as explicações e o sentimento de orgulho perceptível, de quem entende a importância da história que está sendo contada ali. Ao sair de lá, fiquei com a sensação de que estive em um lugar muito maior do que de fato era. Um lugar onde cabe o mundo particular de todos nós, como se fosse o quintal da casa de nossos pais, onde espalhávamos nossos brinquedos e amontoávamos nossas melhores lembranças.



O Museu fica na avenida Afonso Pena, 2564, Funcionários. Abre para visitação de segunda à sexta entre 9 e 17 horas e aos sábados e feriados das 10 às 17. A entrada inteira é R$ 24. Mais informações pelo site museudosbrinquedos.org.br ou pelo telefone 3261 3992.



Carlos Resende, Pai em Construção, para o “Uai, Mãe?!”, direto do Museu dos Brinquedos de Belo Horizonte





CARLOS RESENDE
Engenheiro, tecnologista de materiais para construção, sou marido da Josy, padrasto do Bruno e Pai do Heitor. Todas estas funções me pegaram de surpresa e tive que me virar para fazer jus a cada uma delas. Principalmente esta última. Cara! Como é difícil esse negócio de ser Pai! Não posso dizer que não sabia, mas posso dizer que tem muita coisa que ainda não sei sobre isso. Mas eu vou acabar aprendendo, uma por uma, todas as manhas dessa profissão / sacerdócio / vício / pesada... E aí conto elas aqui. Por falar nisso, que legal esse espaço, não é? Finalmente um lugar para os Papais, entre tantos lugares para as Mamães. A gente se vê por aí!

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