sexta-feira, 2 de março de 2018

Senhor Tempo, o carteiro

Foto por: Jay Fotografia




Ola! Estou escrevendo isso do futuro. Incrível o que se pode fazer hoje em dia com um pouco de imaginação e as devidas licenças poéticas. Pra você, que está lendo isso, eu tenho só dois anos de idade. É evidente que não me lembro desta época, já tenho cá meus tantos cabelos brancos. Contam-me, todavia, que eu era uma criança muito cativante e ativa. Que eu quase nunca ficava quieto, a não ser quando assistia ao meu desenho favorito na TV. Que eu nunca queria lavar o cabelo na hora do banho e que eu não gostava de dormir, o que só era solucionável com minha música predileta. Dizem que eu comia muito, que demorei a falar direito e que minha primeira palavra foi “sapato”. Enfim, dizem de mim um monte de coisas diferentes, engraçadas ou embaraçosas. Cada familiar tem sua própria descrição do bebê que eu fui. Mas todos são unânimes em dizer que eu era muito agarrado ao meu pai.

Nisso eu acredito. Acho difícil acreditar que eu não gostava de dormir, porque hoje eu adoro, mas acredito que essa proximidade com meu pai veio mesmo desde cedo. Alias, não consigo me lembrar de nenhum momento da minha vida em que ele não estava lá. Hoje tenho minha própria prole e aprendi com meu pai muita coisa deste delicioso processo de construção da intimidade e da confiança entre pai e filho. Ele me ensinou que a ligação começa com o toque. Quando você cuida do teu bebê, com as tuas próprias mãos, troca fraldas, dá banho, papinha, acalenta pra dormir, tem sempre a pele-na-pele, o olho-no-olho, os sorrisos, os beijos e as carícias. Esses primeiros e efêmeros momentos, tão preciosos, tecem laços que ligam papais e bebês de uma forma que, até hoje em dia, são muito mais comumente amarrados com as mamães. Meu pai era desajeitado, tinha uma mão pesada e pouco senso de estética na hora de escolher minhas roupas. Mas tinha um colo quente, firme e rico em apertões, beijos e cócegas.

Minha mãe me diz que eu adorava passear com ele na rua, só nós dois. Bastava ele pegar o “canguru” que eu fazia festa. Eu gostava de ir às costas dele, com o queixo em seu ombro, porque aí eu podia ver tudo por onde íamos e, quando eu me cansava, dormia abraçando ele. Que ele tinha um monte de brincadeiras malucas, algumas das quais ainda me lembro, como quando ele solfejava a musica do filme “Tubarão” e me perseguia pela casa. Quando me alcançava, fazia cócegas com a barba até eu chorar de rir. E quando eu parava de chorar, claro, pedia mais: “papai, barba!”. Diz que ele brigava comigo quando eu era mal criado, mas o numero de beijos sempre foi muito maior que o de beliscões. E que na saída da escola ele sempre se ajoelhava no chão, para eu correr pro abraço dele.
Quando maiorzinho, ele adorava responder aos meus intermináveis “por quês”. Passávamos horas inteiras com ele me ensinando, pacientemente, as complexidades de tudo o que era escandalosamente simples. Na verdade, meu pai me ensinou o valor e a importância dessa pergunta tão primária: “por quê?”. Ensinou-me que aprender é muito mais do que acumular informações, mas é se apaixonar pelo método pelo qual as informações são obtidas. Apaixonei-me pela busca do conhecimento e aprendi até a aceitar e apreciar a ignorância, já que ela é uma prateleira vazia, pronta para eu preencher com coisas novas e fascinantes. Meu pai me ensinou a dizer sem medo que eu não sei, mas nunca me contentar com essa resposta. A valorizar a opinião das pessoas, mas nunca me deixar convencer antes de ver as evidências.

Com o tempo ele me ajudou a entender muitas coisas desse nosso mundão, tão complicado. Ajudou-me a entender que as pessoas eram todas diferentes e que as mais diferentes de todas podem ser as que mais têm a me ensinar, ou as que mais precisam da minha ajuda. Depois me ensinou que existem muitas formas de amar e que nenhuma delas é menos importante ou mais adequada. Em seguida me mostrou que muitos dos rótulos que as pessoas dão pras coisas estão errados e que eu não deveria me contentar em seguir a correnteza, ao contrário, era minha responsabilidade ajudar a mudar o rumo do barco da humanidade, remando em outra direção.

Na adolescência, ele ensinou porque eu deveria ser bom e como a cooperação é mais importante que a competição. Contava que foi só pela capacidade de nos ajudar mutualmente que nossa espécie sobreviveu e cresceu até dominar a Terra. Que eu não deveria esperar recompensas pela solidariedade, nem evitar os desvios por medo de punições. Eu deveria ser bom, porque não há outra forma de ser. Ensinou-me que o trabalho não significa dinheiro, mas é a minha forma de contribuir para a sociedade da qual eu usufruo e que não é certo eu ter alguma coisa, se nesta coisa não estiver contido um pedacinho do meu trabalho, ou a fração do amor de alguém. E que a melhor forma de ter muito é oferecendo o maior valor que eu puder gerar. Nessa época, falávamos muito de meninas é claro. Ele me ensinou um ou dois bons truques, mas me ensinou acima de tudo a amar as mulheres, antes de amar aos seus corpos. Meus amigos costumam dizer que homens não entendem as mulheres. Acho que meu pai entendia. Ele dizia que se você respeita algo, você acaba entendendo. E não se pode amar se você não respeita assim como não se pode respeitar aquilo que você não entende. Então aprendi a amar as mulheres.

Sempre que eu chorei, ele ofereceu o ombro. Sempre que eu fracassei, ele me ajudou a reconstruir. Sempre que eu errei, ele me corrigiu. Sempre que eu ganhei ele festejou comigo. E assim, como uma presença constante, às vezes de perto, às vezes de longe, meu pai se amontoou no meu coração e se espalhou pela história da minha vida. E eu nunca fui velho demais para voltar para o colo dele e pedir mais conselhos. Que sorte eu tive. Que sorte eu tenho. Meu pai... Não gosto nem de pensar que vou precisar seguir sem ele. Por melhor que ele tenha me preparado, nunca me sentirei pronto. Acho que isso é apenas natural, já que a vida é tão irônica. Ele que segurou minha mão tantas vezes, agora é quem precisa de toda a força que eu conseguir demonstrar.

Papai se estiver lendo isso, saiba que deu certo, tá? Que vai dar cento, eu quero dizer. Você sabe exatamente o que tem que fazer, pode confiar. Haverá tempos bem difíceis pela frente, mas sei que você nunca desiste e nunca desistiu de mim. Agora, preciso me despedir. Minha doce e linda mãe, nossa eterna Princesa, esta me esperando no hospital. Hoje é minha vez de passar a noite com você.



CARLOS RESENDE
Engenheiro, tecnologista de materiais para construção, sou marido da Josy, padrasto do Bruno e Pai do Heitor. Todas estas funções me pegaram de surpresa e tive que me virar para fazer jus a cada uma delas. Principalmente esta última. Cara! Como é difícil esse negócio de ser Pai! Não posso dizer que não sabia, mas posso dizer que tem muita coisa que ainda não sei sobre isso. Mas eu vou acabar aprendendo, uma por uma, todas as manhas dessa profissão / sacerdócio / vício / pesada... E aí conto elas aqui. Por falar nisso, que legal esse espaço, não é? Finalmente um lugar para os Papais, entre tantos lugares para as Mamães. A gente se vê por aí!

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