quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O velho Senhor Resende, do 509


Desde garoto eu nunca quis ser pai. Não foi nenhum trauma, nenhum mal exemplo. É que eu queria uma vida simples, sabe? Queria a liberdade absoluta, do tipo em que você faz coisas estúpidas simplesmente porque pode fazer. Queria desfrutar da sensação de que, se eu quisesse, poderia simplesmente me mudar pra China. Morar sozinho num estúdio minúsculo, onde o cesto de roupa suja ficasse na porta, pra eu entrar pelado dentro de casa, dizer “Ramones!” e o som começar a tocar no 10. Chegar sozinho no aeroporto e escolher na hora para onde eu iria de férias, eu e minha mochila. Mandar pessoas à merda! Acordar sem saber onde eu estou! Nunca sair de casa sem meu skate! Gastar meu corpo até não sobrar nada pra enterrar.

Eu dizia que existiam só duas escolhas: A vida triste, com final feliz, que é a vida de casado e a vida feliz com final triste, a do solteiro. Porque quando se tem uma família, claro, as chances de se ter uma velhice feliz são muito maiores. Filhos, netos, amigos, uma companheira... Uma vida inteira de boas escolhas e sensatez. Agora, se eu concretizasse meu projeto de nunca ter filhos, eu provavelmente chegaria ao final sozinho, silencioso, até um tanto macabro. Quando eu aparecesse no condomínio, corcunda e carrancudo, as crianças todas correriam dizendo:

- Vejam só, é o velho Senhor Resende do 509! Fujam todos!

“Mas jovem Senhor Resende, não haveria de ter um meio termo? Eu não posso ser pai e ao mesmo tempo fazer tudo aquilo que me deixa contente, da mesma forma? Ora, eu não posso deixar a paternidade evitar que eu seja feliz! Com equilíbrio e responsabilidade dá pra fazer tudo e ter o melhor dos dois mundos! ”. Sim, você está certo. E não, você está errado. Talvez esteja certo, mas não pelo motivo pelo qual pensa estar. Uma vez eu escrevi que, apesar de ter gostado muito de ser pai, eu não recomendo a paternidade pra ninguém. Isso porque a paternidade não é algo que se recomende, como um filme ou um bom restaurante, eu disse. A paternidade é uma escolha que tem que partir do próprio indivíduo, porque não vale ser pai pela metade.

Não se enganem, a paternidade ativa requer, sim, muitas concessões. Você vai sacrificar muita coisa, vai se privar de muitas coisas que hoje você acha importante. A menos, é claro, que você escolha ser um ajudante da mamãe, ou um papai “selfie” como diria meu caro Marquinhos. Aí, é parecido com ser solteiro, mas com um salário menor e uma segunda mamãe, só que mais jovem e chata, mandando você largar o vídeo game e ir passar uma vassoura na casa. Se você abraçar a ideia de ser um pai praticante e pregador, alistado e diligente, você vai ter que fazer aquilo que as mulheres sempre fizeram quando se tornam mães: vai ter que mudar.

Quando a galera do escritório te chamar praquele happy hour “Top”, naquele barzinho “show” que fabrica a própria cerveja artesanal, você vai ter que recusar, porque precisa pegar teu filho na creche, fazer o jantar pra ele e pôr a roupa pra lavar. Nos finais de semana, você tinha um dia só pra você praticar teu esporte favorito ou ir pro clube tomar umas, mas agora você leva teu mais velho pra praticar o esporte dele no sábado.E leva junto o bebê, claro,porque ele ainda depende de você o tempo todo. Tuas viagens a trabalho precisam ser mais curtas e não pode mais passar o final de semana fora, porque não tem ninguém pra cuidar das crianças. Precisa bater agenda com a tua esposa, para ver quando são os compromissos de trabalho um do outro e não deixar coincidir, porque um de vocês precisa estar com eles. Você não poderá mais ir a lugares que não sejam adequados pras tuas crianças. A quantidade de compromissos vai aumentar e você vai usar teu tempo livre como um curinga, para acomodar os imprevistos e contratempos. Vai passar a se preocupar muito com dinheiro, porque não pode mais fazer besteiras nessa matéria. Terá menos tempo sozinho com a(o) companheira(o) e cada vez menos privacidade.

E aí, o tempo passa. Os dias viram anos, que viram décadas, que vão comendo a vida sem que a gente perceba ou sem que queiramos admitir. E de repente lá estamos nós, os velhos Senhores Resende, Barbosa, Martins, Santiago, Andrade, Oliveira... Estamos deitados numa cama, sozinhos com nossos pensamentos, cientes de que nossos dias já não se tornarão em outros anos. Do que lembramos com carinho? O que gostaríamos de viver de novo? Será que vamos lembrar das baladas em que dançamos? Das mulheres que tivemos por uma noite só? Do gosto das bebidas? Dos momentos que não dividimos com ninguém? Será que vamos realmente entender como sacrifícios tudo que fizemos pelos nossos filhos, por nossas esposas, por nossa família? Será que vamos nos arrepender das noites em claro cuidando do filho doente, dos finais de semana de sol em que perdemos o futebol? Do que iremos lembrar nas horas derradeiras?

Eu sei dizer umas coisas de que vou me lembrar: Vou lembrar-me daquele aniversário de casamento em que ela estava grávida, sentada no chão da sala, pintando uma letra H de madeira para o quartinho do Bebê. Do dia em que ela deu à luz nos meus braços, quando eu cortei o cordão umbilical do meu filho e peguei na mãozinha dele pela primeira vez. Do dia em que ele andou primeiro e eu estava lá pra recebê-lo na outra ponta do corredor. Vou lembrar-me do primeiro presentinho no dia dos pais, recebido na porta da escolinha, com uma impressão da mãozinha dele em tinta guache. Das vezes em que eu cozinhei pra ela enquanto ela me olhava, de pé à porta da cozinha, me dizendo que eu era o melhor marido do mundo. Do som da risada dele, pedindo pra eu passar a barba no pescoço. Vou lembrar-me do dia em que ele me olhou, sorriu e pela primeira vez disse pra mim: “Ti amu papai!”.
Você vai ter que mudar, mas vai gostar muito disso. Você continuará sendo feliz, não porque conseguirá conciliar a paternidade com as coisas de que você gostava, mas porque vai gostar muito mais das novas coisas, até que as coisas antigas não vão mais te satisfazer. Você recusará os convites com alegria e ansiedade pra ir logo pra creche. Vai vibrar mais com os pontos marcados por ele no sábado, que com os que você costumava marcar. Vai recusar todos os lugares que não têm fraldário e parquinho por achar um absurdo! Vai pegar um voo de 4 horas na sexta e outro na segunda, só pelo prazer de estar com eles no fim de semana. E os teus momentos sozinhos com ela, tão raros, serão todos como uma festa, melhores que as baladas de uma vida inteira.

É, parece que não serei mais o velho Senhor Resende do 509. Por hora, estou adorando ser o Tio Carlos do 202.



CARLOS RESENDE
Engenheiro, tecnologista de materiais para construção, sou marido da Josy, padrasto do Bruno e Pai do Heitor. Todas estas funções me pegaram de surpresa e tive que me virar para fazer jus a cada uma delas. Principalmente esta última. Cara! Como é difícil esse negócio de ser Pai! Não posso dizer que não sabia, mas posso dizer que tem muita coisa que ainda não sei sobre isso. Mas eu vou acabar aprendendo, uma por uma, todas as manhas dessa profissão / sacerdócio / vício / pesada... E aí conto elas aqui. Por falar nisso, que legal esse espaço, não é? Finalmente um lugar para os Papais, entre tantos lugares para as Mamães. A gente se vê por aí!

Um comentário:

  1. É incrível como este meu amigo consegue, expor exatamente a minha mesma sensação... Sensacional o texto.

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