sábado, 6 de janeiro de 2018

Você não é meu Pai!

Eu conheci a mãe dele pelo Orkut, vejam só isso. Aqueles primeiros dias preciosos, que a gente passa pensando na hora de conectar e poder falar com outro de novo. Eram tempos difíceis, tanto para ela quanto para mim. E a gente se apoiava naqueles minutos de papo onde eu, deliberadamente, tentava matar ela de rir. Era minha forma de trapacear a natureza, na fina arte da conquista. No último dia da nossa fase virtual ela de repente fica séria, faz uma cara solene e escreve:

- Eu tenho um problema.

- Todo mundo tem. Qual é o teu?

- É que eu tenho um filho...

Ora, é super normal essa neura, eu pensei. Aliás, isso deve ser uma preocupação na mente de tantas e tantas meninas. Afinal, o mundo é um carrasco inescrupuloso, quando o assunto são mulheres que não cabem na forminha de cup cake da sociedade.

- Ora essa, não sei se percebeu, mas eu sou um cara de trinta anos. Não estou mais procurando uma virgem de 15, com dote e que saiba remendar camisas.

E ela riu de novo. Eu mais aliviado, porque ela voltou a rir. Se ela para, lá se vai minha mágica e eu perderia aquele peixe!

No começo, tudo era dúvida e, na dúvida, resolvemos que ele ficaria de fora. Pelo menos por enquanto. Nossos problemas não eram dele ainda e a prudência é uma excelente vacina. Então um dia, uma emergência, eu era o único por perto e a gente acabou se conhecendo.

Loirinho, pequenininho. Lindo que só. Olhos acinzentados, me olhando com dúvida e hostilidade. Não disse nada, por muitas horas. E eu olhava pra ele com uma vontade enorme de ser aceito, tipo num concurso ou numa seleção de vaga de emprego. Este, definitivamente, não era um amor para primeiros encontros. E houveram outros encontros. E outros depois daqueles. E quando eu percebi ele já estava sentado nos meus ombros, ou remando um skate atrás do meu, ou atendendo o telefone da casa dos meus pais:

- Alô! Não, aqui quem fala é o Enteado do Tio Carlos!

Eis então que eu era o Padrasto. Adotamos esta palavra com naturalidade, sem pensar se era a mais adequada. Era só um título, pra ficar mais fácil, para me prestigiar um pouco e para me localizar no coraçãozinho dele, do lado de fora do espaço reservado para o papai. E ele rapidamente aprendeu as manhas de ser um Enteado, mais rápido que eu aprendi a ser Padrasto. Ele entendeu que eu era o cara das brincadeiras e dos puxões de orelha. Das risadas e dos conselhos. Um cara que amava ele, lutava para conquistar o respeito dele e que ele poderia amar também se quisesse. E ele quis.

Não era um amor de filho, apesar de ser parecido. Assim como eu não lhe dei amor de pai, porque ele não precisava. Mas era amor de qualquer forma, e quem éramos nós pra tentar rotular esse amor? E, de fato, nem estávamos preocupados com isso. Só queríamos andar de skate, tomar sorvete, falar do mundo e das estrelas. Dar risada e assistir televisão. Ele só queria que eu respondesse todos os porquês, segurasse na mão dele e caminhasse do lado. E eu, só queria que ele ficasse longe de encrenca, aprendesse tudo que eu pudesse ensinar e me ensinasse de volta a ser um bom estagiário de Pai.

Ele cresceu. A mamãe agora tem um bebê. O papai agora tem um bebê. O Tio Carlos agora também tem um bebê. Ele cresceu e com isso vieram as cobranças. Ele precisa estudar, precisa obedecer a mãe. Precisa aprender a cuidar de si e contribuir pra família, pro mundo. Muitas perguntas, muitas críticas, muitos castigos. Ele só queria ser um bebê de novo, mas sabe que não vai dar. Então ele aguenta. Fica triste, mas aguenta firme. Aquele padrasto que era só ladeiras, sorvete e risadas, agora ralha com ele. Agora da lição de moral. Ele conhece o meu pior e, com isso, me conhece por inteiro. E eu sei que não posso deixar ele se perder, sei da minha importância e que preciso fazer jus à confiança da mamãe e do papai. E aguardo, então, o dia em que ele vai gritar com a voz desafinada de adolescente:

- Você não é meu pai!

Ele cresceu mesmo. Ta quase do meu tamanho. Ta melhorando na escola e ta treinando para se tornar um Samurai, vejam só! Ta começando a fazer amigos e até algumas “amiguinhas” também. Aprendeu a lavar louça e ta melhorando no cuidado com o irmãozinho. A cada dia, me traz mais orgulho e menos preocupações. Meu Enteado! Meu “Mais Velho”! Meu professor de paternidade I. Que homem incrível você está se tornando! E que pai tão melhor você ajudou a criar pro teu irmão.

- É que eu tenho um filho...


Jamais poderei agradecer o suficiente, pelo fato de ela ter um filho.


CARLOS RESENDE
Engenheiro, tecnologista de materiais para construção, sou marido da Josy, padrasto do Bruno e Pai do Heitor. Todas estas funções me pegaram de surpresa e tive que me virar para fazer jus a cada uma delas. Principalmente esta última. Cara! Como é difícil esse negócio de ser Pai! Não posso dizer que não sabia, mas posso dizer que tem muita coisa que ainda não sei sobre isso. Mas eu vou acabar aprendendo, uma por uma, todas as manhas dessa profissão / sacerdócio / vício / pesada... E aí conto elas aqui. Por falar nisso, que legal esse espaço, não é? Finalmente um lugar para os Papais, entre tantos lugares para as Mamães. A gente se vê por aí!

4 comentários:

  1. Padastro, papai, marido, sobrinho... pôxa Carluxo, você é o cara!

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  2. Parabéns para o Bruno, saúde e sorte sempre! E ao Carlos, lindas palavras!

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    1. Obrigado minha querida! Muitas alegrias, muito amor e muita saúde pro teu bebê.

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