quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Estar oculto quando terá sido o óbvio

Foto: Davidson Rocha
Trecho da letra O Índio de Caetano Veloso

“E aquilo que nesse momento se revelará aos povosSurpreenderá a todos não por ser exóticoMas pelo fato de poder ter sempre estado ocultoQuando terá sido o óbvio” 
Já estive na posição de pai de menino pequeno, e isso já faz alguns anos. Quando cheguei ao evento Força Pai, confesso que não me passou pela cabeça, em momento algum, que de alguma forma seria tocado. Ao chegar, minha percepção era de certa forma de soberba, me sentia em posição vantajosa sobre aqueles ainda inaptos pais que ali se expunham de forma quase grotesca ( trágico /engraçado) o que até cabia afinal eram mais de 150 homens fragilizados naquilo que mais nos torna vulneráveis, nossas famílias. Fui tocado e muito.

Somos uma soma de herança cultural e social que forma uma sopa espessa de sentimentos e atitudes com pedaços de amargos de culpa, machismo, racismo e outros nacos que não vêm ao caso para esse texto. Mas a culpa sim.

Sentimos culpa porque fizemos, sentimos culpa pelo que faremos, sentimos culpa pelo que deixamos de fazer. Temos uma dose ou mais de culpa diária em nossas vidas e elas se acumulam em quarto de bagunça que fica no fundo de nossas mentes (alma).

As mulheres foram jogadas aos leões criadas ainda sobre a máxima de que “ser mãe é padecer no paraíso” aceitaram a enfermidade natural de sustentar metas e compromissos quase desumanos, veja: mãe, mulher, amante, esposa, filha, intelectual, despojada, linda, gostosa, eficiente, organizada, com memória excepcional, paciente, cheirosa, arrumada, unhas feitas, cabelos impecáveis, algumas turbinadas, de sucesso e por aí vai.

Ao pai, homem em posição bem definida na instituição e na sociedade, tipo: trabalha de segunda a sexta, pelada da quinta, happy hour da sexta, passeio no sábado e casa da mãe ou sogra no domingo. Tudo bem organizado. Sobrou o quê? E agora pai?

Agora é arregaçar as mangas e partir pra dentro! E foi isso que eu vi naquele evento, homens, pais tentando entender o trator que está passando por cima de suas vidas desorganizando o que faz sentido. Foi muito bom e de muita coragem!

Respira, que conversando a gente se entende.  Aqueles que são responsáveis pela criação de uma criança, um casal tradicional ou não, casado ou separado, criado por vó, tia ou padrasto têm em comum o sentimento de obrigação contínua e responsabilidade eterna. Falo por mim, criamos, eu e Patricia, nossos três filhos com muita dedicação, decidimos ter nossa empresa para termos mobilidade de tempo e conseguimos, por mais de 20 anos, realizarmos as três refeições juntos.

Recusamos boas oportunidades que envolviam viagens e ausência regular. Participamos dos principais momentos de suas vidas estando sempre presente. Com isso me dei o direito de pensar que poderia conduzir suas atitudes, gostos e preferências. Passei a cobrar deles o que havia lhes ensinado, afinal tinha certeza absoluta que havia lhes passado o melhor do valores. De repente passaram a agir de forma estranha, escolher roupas estranhas, músicas estranhas, amigos mais estranhos ainda. A minha resposta foi imediata, passei a requerer meu tempo investido, como assim ouvir axé? Sempre ouvimos bossa e jazz. O resultado também foi rápido, depois dos conflitos o afastamento. Já não sabia que estava acontecendo, afinal onde erramos? Não erramos.

Construímos uma proximidade, cumplicidade de muito tempo e não podia deixar que acabasse assim. Percebemos, uma luz divina nos iluminou, que a resposta não estava no passado e sim no presente. Não fizemos nada de errado apenas perdemos a confiança em tudo que ensinamos e nos desesperamos. Passei a aceitar as diferenças, na verdade fui obrigado, eu, mais que a Patricia, a aceitar que eles não são um projeto meu e sim são projetos de suas próprias vidas. Hoje, vejo como são muito melhores do que planejei, pessoas honestas, profissionais dedicados, generosos e muito amigos entre si . Nossos filhos não são obrigados a serem o que pensamos de melhor para eles. Amar não é moldar, é educação que transforma, transforma o educando de dentro para fora e não de fora para dentro. Confie nos valores que passou para seus filhos e tenha em mente que cada filho tem sua própria caminhada e carrega junto a responsabilidade de ser feliz.

Liberte-se desse peso e perceba o óbvio ainda que oculto.


Até a próxima!


PAULO CANARIM
Sou Paulo Canarim pai do Vinicius, Mariah e Nathália, pedagogo, contista e executivo do Nautilos Marketing Digital

Nenhum comentário:

Postar um comentário