segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Homens não sabem cuidar de bebês


Sinto muito por inaugurar essa coluna dessa maneira, mas é a verdade. Homens não sabem cuidar de bebês.
Há um ano e meio venho produzindo um podcast sobre paternidade e criação de filhos. Nesse período conheci muitos pais: pais de primeira viagem, pais de sete filhos, pais solteiros, pais viúvos, pais de crianças na UTI, pais que vivem no exterior, pais que viajam com circo. Todos são unânimes em dizer que não estavam preparados para as atividades que envolvem os primeiros anos de uma criança, não está em nossos genes: trocar fraldas, passar pomada, dar banho, fazer papinha, dar papinha (putz! dar papinha…), medir temperatura, fazer dormir, escolher as roupinhas, limpar o nariz… a natureza não nos prepara pra tudo isso. Acima de tudo, nós não somos criados para isso!
Veja bem, quando somos crianças, ganhamos carrinhos, peões, bolas, kits de ciência e engenharia, enquanto nossas esposas ganharam bebês de plástico que falavam “mamãe”, faziam xixi e choravam até que alguém os pegassem no colo e lhes dessem o bico. O mais próximo de trocar a roupa de uma criança que vivemos foi substituir o traje de combate (afinal, roupinha é coisa de boneca!) do bonequinho (com “o” e não “a”) para que ele matasse os inimigos também embaixo d'água. Nós, homens, não fomos convidados a acompanhar os cuidados das mães com nossos irmãos e primos mais novos, pelo contrário, geralmente nos expulsavam dizendo: “vai brincar, menino! Aqui não é lugar de criança”. Por isso homens não sabem cuidar de bebês, e essa é a parte boa de ser pai.
Homens não saberem cuidar de bebês nos alivia de toda a parte irritante da criação de uma criança. Quando um choro nos acorda durante à noite, podemos balançar os ombros de nossa esposa adormecida dizendo: “amor, não sei o que ela quer, acho que quer a mãe”. Quando o cheirinho de fralda cheia invade nosso nariz e percebemos que o conteúdo está quase vazando, podemos dizer: “amor, eu nem sei por onde começo a trocar essa fralda!”. Quando estamos atrasados para o médico, podemos ficar na sala trocando os canais da TV enquanto gritamos para nossa esposa ensopada de água: “amor, eu não sei dar banho. Anda logo ou vamos perder a consulta!”. Quando a criança começa a fazer birra, cuspindo a papinha, batendo as mãos dentro da tigela, podemos dizer: “amor, vem aqui, eu disse que não sabia fazer isso!”. Ser pai é libertador!
Homens não sabem cuidar de bebês e não há como negar isso. Mas, se você é pai e concordou com tudo o que eu disse até o momento, peço que continue a leitura com muita atenção. Nesse tempo em que venho produzindo o Entre Fraldas, também conheci muitas mães: mães de primeira viagem, mães solteiras, mães viúvas, mães de crianças na UTI, mães que vivem em outros países, mães que viajam com o circo. Todas também foram unânimes em dizer que não estavam preparadas para as atividades que envolvem os primeiros anos de uma criança.
Apesar de os primatas, nossos parentes mais próximos, em sua maioria delegarem às fêmeas a criação dos filhotes, faz muito tempo que não nos guiamos por instinto. Sinto dizer que não existe gene para trocar fraldas, vestir roupa, dar banho na banheira, passar pomada. Nossos rituais para criação de filhos estão tão distantes do “natural” que não podem ser classificados como instintivos.
Por fim, embora as mulheres sejam realmente educadas para serem mães (o que gera uma outra discussão), um bebê de plástico não faz cocô enquanto você troca as fraldas, não escorrega na banheira (e se escorregar não engole água, ou infecciona os ouvidos!) e não engasga com o leite. Mães erram ao cuidar das crianças e sentem remorso por isso, culpam-se, choram, mas não podem se esconder atrás de um falso rótulo de que “mulheres não sabem cuidar de bebês”. Nenhum pai ou mãe sabe cuidar de bebês até que eles cheguem, ninguém sabe trocar fraldas até que as troque, ninguém sabe dar remédio até que a criança fique doente. A boa notícia é que existe uma capacidade natural comum a homens e mulheres: aprender! Ouça o Podcast!

MARCELO CAFIERO
É um pai medíocre das gêmeas Alice e Helena, professor de língua portuguesa e produtor dos podcasts Entre Fraldas e Hiperativo.

Um comentário:

  1. Fiquei encantada ao ler o texto. O título não me encaminhou para o conteúdo surpreendente. E no início da leitura fui ficando incomodada com as afirmações, até que eis que se revela a intenção do autor. Parabéns pelas afirmações. Parabéns pelo incentivo aos pais a participarem ativamente no cuidar dos filhos.

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