sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Força de Pai

Uma noite de segunda como outra qualquer. A cidade toda às moscas. BH tem bar sim, mas só lá para quarta em diante. Porém em um cantinho dela, homens se reuniam diante do Lord Pub, famoso point do rock. Quem passassem pela porta pensaria que a balada seria boa. Mas nenhum deles conseguiria supor o que aconteceria naquela noite. Eu mesma não tinha real noção do que estava para acontecer. Creio que ninguém tivesse.

Seria o primeiro encontro de pais em um ambiente completamente diferente do já oferecido para falar sobre paternidade. Era o primeiro Força de Pai.
Muito se criticou durante a preparação para o evento, alguns não entendiam a proposta.

- Mas falar sobre paternidade e não poder levar os filhos?
- Vocês estão incentivando o machismo!
- Quanta criatividade! Reunir homens em um bar para beber enquanto as mães ficam em casa cuidando dos filhos!

Toda vez que líamos um comentário desses, nos entristecíamos, buscávamos conforto no nosso ideal de que para alcançar resultados diferentes do que já era realidade na sociedade, era preciso seguir um caminho diferente, que por ser tão inovador, bateríamos de frente com várias pessoas, com suas convicções e olhares tortos.

Fazendo uma das artes de divulgação do evento, achei uma frase que me deu força para prosseguir.

"As pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo são as que de fato, o mudam. 
Steve Jobs
Foto: Arquivo Pessoal da Ana Paula Novato Raris
E queríamos a mudança. Só não imaginávamos que naquele dia, nós mesmas mudaríamos. O Força de Pai mudou não apenas a visão que tínhamos sobre a paternidade, como abriu nossos olhos para o quanto alguns pais se sentiam aprisionados sem ter com quem conversar.

Tínhamos tudo planejado, na sala lá em cima Marcos Piangers, juntamente com o Bruno do Pai Tem que Fazer de Tudo, Marcelo e Rodrigo do Entre Fraldas, Rafael do Sem Choro e Marcelo Singulani da Concretize, esperavam ansiosos pela hora exata da abertura do portão. As 18h30 já havia uma fila enorme na entrada. Era de assustar! Era de emocionar. Friozinho na barriga crescendo...

Foto: Jeff Gomes
Abrimos as portas e logo o Lord estava lotado de pais. Íamos perguntando um a um sobre paternidade. Havia todo tipo de gente: aqueles que eram pais de adolescentes, pais de duas ou mais crianças, pais-solos, padrastos, pais de crianças que ainda iriam nascer, outros que ainda nem pai eram.

- Vim ver se vale a pena. - Diziam estes.
- Não sou pai não. Vim porque vi a fila e queria saber o que estava rolando.

Foto: Jeff Gomes
 Este deve ter pensando "é a pior balada da minha vida", diria Marcos Piangers mais tarde ao descobrir sobre o ocorrido. Alguns obrigados pela esposa. Salvar o casamento era a pedida da vez.

Quanta responsabilidade a nossa!

Foto: Davidson Rocha
Abrem-se as cortinas e começa o show. E um bate-papo recheado de perguntas e pulguinhas atrás da orelha começa. Com o tempo a trava masculina de se abrir com os outros homens foi caindo por terra. O microfone era disputadíssimo!

Foto: Davidson Rocha
Perguntas sobre como se criar meninas, sobre como se criar meninos que respeitem as meninas. Pergunta sobre redes sociais e tecnologia. Sobre tempo de qualidade, aperto financeiro e brinquedos caros, sobre como dizer "não" e este ser o maior bem a se fazer pelo filho.  Relato de parto contado pela visão deles, perda dos filhos contada e chorada por todos, homens se despindo de todos os medos e chorando ali ao lado de outros, abraçados uns aos outros, dividindo seus medos e erros, suas glórias e acertos, alegria divida e compartilhada, sorriso e leveza na alma.
Foto: Davidson Rocha 
 Houveram pais conversando sobre educação, sobre amamentação. Pais super-heróis que querem mudar o mundo, incomodados com os filhos que estamos trazendo ao mundo da forma em que ele está, inconformados com a sociedade e como estas crianças estão crescendo, pais que queriam realmente participar da criação dos filhos e criá-los melhor.

Homens que se reuniram para conversar sobre como invadir os espaços tipicamente femininos e como esta invasão ajudaria a mais e mais pais a entrarem também. Ir ao pediatra e não ser mais visto como incapaz  de cuidar do próprio filho. Tristeza ao contar sobre a guarda compartilhada que só lhes permitiam ver o filho que tanto ama de 15 em 15 dias. Casamento colocando em jogo, adultos não preparados emocionalmente que chegam ao término de um relacionamento com ódio um do outro e prejudicam a relação pai e filho, criam um abismo enorme onde deveriam haver laços.

Foto: Davidson Rocha
Mergulhamos em um mundo completamente novo que sinceramente, nós mães, desconhecíamos. Falaram sobre machismo e como isto afeta a vida dos pais também quando lhes é negado o espaço para exercer sua paternidade de forma realmente ativa e livre.

E o papo se estendeu por muito mais de 22h, conforme havíamos erroneamente programado. Mais e mais pais querendo compartilhar sua experiência de vida. Teve pai que nunca havia falado com ninguém sobre a perda gestacional do seu primeiro filho contando sua dor, nos emocionando e sendo abraçado por tantos que ele nunca havia visto na vida, pais que entenderam a importância de se ter um espaço para bons amigos que ouvem e não julgam, que ajudam a enxergar o caminho certo.

Provamos enfim que paternidade é sim assunto para bar. É assunto para todo lugar! Eles só precisavam achar o lugar. E quanta alegria nossa em encontrar alguns loucos que abraçaram a ideia e nos ajudaram a fazer deste evento um marco em BH e que ficará sempre na memória de todos! Que alegria a nossa poder dizer que nós fizemos deste O LUGAR.

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AOS APOIADORES NOSSO MUITO OBRIGADA!















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