quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Ao Papai Pombo e ao Papai Gorila


A natureza aprendeu e aperfeiçoou diversas formas de ser pai. E nenhuma destas receitas é melhor ou mais nobre. Nenhuma menos admirável. O Papai Zangão, por exemplo, nasce de um ovo não fecundado e sua quase exclusiva tarefa é fecundar a Rainha, dando início a uma nova colmeia. O Papai Louva-a-deus serve de alimento para a futura mamãe, logo após a cópula, aumentando suas chances de sobreviver durante a gestação. Há um verme marinho, chamado Osedax, cujos machos vivem em grupos dentro do corpo das fêmeas, dividindo a responsabilidade da fecundação. O Papai Pinguim Imperador choca sozinho o único ovo do casal, enfrentando temperaturas de -40ºC e ventos de 200 km/h, durante 65 dias, sem comer, sem deixar o ovo tocar no chão. O Papai Pombo divide com a mamãe a tarefa de chocar os ovos. O Papai Cavalo Marinho é quem cuida da gestação propriamente dita, guardando e fecundando os óvulos da fêmea dentro de uma bolsa incubadora no seu abdômen. O Gorila é um pai que não cuida das necessidades diárias dos filhotes, mas é extremamente protecionista e preocupado coma socialização dos mais jovens. Há até uma espécie de pássaro no Ártico, o Falaropos, onde são as fêmeas que lutam entre si por território, pela posse dos machos e são os Papais que cuidam exclusivamente dos filhotes.
Nós, o poderoso e complexo Homo Sapiens, somos talvez a única espécie capaz de produzir diversas estratégias diferentes de paternidade. Nosso papel nas famílias estará sempre aberto a ser aperfeiçoado e cada lar pode ter um Papai diferente. Eu digo isso, neste primeiro texto, porque frequentemente nós vamos abordar este tão falado “Papai Moderno”. Este Pai participativo, que não se coloca em posição privilegiada em relação à Mamãe, quando se trata de cuidar dos próprios filhos. E então, muitos dos Pais que não se consideram membros desse grupo tão prestigiado, tão elogiado, podem se sentir diminuídos em sua importância ou compreensivamente defensivos, desqualificando esse “Super Pai” da internet como uma modinha, um meme de uma geração amolecida.
As pessoas são todas diferentes e as experiências que colecionamos no contato com elas são igualmente diversas. Por isso, existem enumeras formas de se tornar uma referência positiva para nossas crianças, seja como um Papai Pombo, seja como um Papai Gorila. Eu não posso deixar de usar o exemplo do meu próprio pai, que nem de longe se enquadraria nesta categoria do Pai Moderno, mas sem dúvida é meu herói. Mesmo como filho mais velho, não me lembro dele trocando fraldas ou dando banho nos pequenos, mas me lembro de que todos os dias ele fazia o café da manhã, num gesto rotineiro de cuidado silencioso. Ele nunca sentava no chão da sala, inventando brincadeiras conosco, porque sempre trabalhava em turnos estendidos, para nos tirar de uma condição financeira desfavorável e suportar minha mãe quando teve sua saúde debilitada. Era um trabalho fisicamente muito exigente e muito perigoso, diversas vezes ele se machucou, algumas vezes gravemente e em uma das vezes de forma definitiva e irreversível. Ele nunca foi a um evento importante da minha escola ou a algum campeonato esportivo, mas foi meu acompanhante irredutível em todas as muitas cirurgias a que me submeti. Mesmo hoje, quando estou perto dos 40 anos, é com ele que eu fico de papo na sala de espera, é ele um dos primeiros que eu vejo quando acordo da anestesia e é ele quem me leva pra casa.
Meu pai não era de oferecer carinho com as mãos ou com palavras, mas ele tem até hoje um jeito muito particular de fazer a mesma coisa: Ele fica atento para descobrir determinado doce ou determinada bebida, pelos quais eu me interesse, e providencia para que eu os tenha em todas as vezes que a gente se encontra. Isso é desde que eu me lembro. Também nunca o vi perder a paciência, nem quando teve todo o direito de perder. Nunca pôde me ajudar com os deveres de casa, mas me ensinou lições que hoje servem de cabide, onde eu penduro absolutamente tudo o mais que eu aprendo. Ensinou-me a dar valor ao trabalho e nunca desejar aquilo que não tenha sido um resultado direto desse trabalho. Quando meus garotos forem adultos, quero que eles se lembrem de mim do jeito que hoje eu vejo meu pai.


Portanto, não importa se você tem a habilidade, a paciência, o tempo ou a desenvoltura que as outras pessoas acham adequados. Não importa se tem ou não os conhecimentos, ou o exemplo pregresso de um pai presente. O importante é que tenha a consciência de que esta oferecendo o seu melhor e que se esforce para melhorar a cada dia. Sinta orgulho e cumpra essa missão com diligência e carinho. Procure todo dia novas formas de ser um Pai, faça a tua própria receita. E aí um dia você finalmente vai ser um daqueles heróis que a gente fantasiava ser nas brincadeiras de faz de conta, quando a vida era simples e éramos apenas filhos.
Eu não sou um especialista. Longe disso. Talvez eu esteja mais perdido que você. Muito provavelmente eu aprenderei muito mais com os comentários dos Papais de segunda e terceira viagem do que vocês aprenderão com meus textos nessa coluna. Então, que tal nos dar a chance de conversar sobre nossos medos e nossas vitórias? Que tal aproveitarmos esta rara oportunidade de nos expressar como homens e como pais? A casa é nossa! Bem vindos à coluna Pai em Construção.





Carlos Resende
Engenheiro, tecnologista de materiais para construção, sou marido da Josy, padrasto do Bruno e Pai do Heitor. Todas estas funções me pegaram de surpresa e tive que me virar para fazer jus a cada uma delas. Principalmente esta última. Cara! Como é difícil esse negócio de ser Pai! Não posso dizer que não sabia, mas posso dizer que tem muita coisa que ainda não sei sobre isso. Mas eu vou acabar aprendendo, uma por uma, todas as manhas dessa profissão / sacerdócio / vício / pesada... E aí conto elas aqui. Por falar nisso, que legal esse espaço, não é? Finalmente um lugar para os Papais, entre tantos lugares para as Mamães. A gente se vê por aí!

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