quinta-feira, 21 de junho de 2018

Guardei o amor na carteira


Dias comuns são os mais surpreendentes, tenha a certeza.

Dias que passamos deitadas olhando o tédio caminhar bem na sua frente, - porque sim, ainda usufruo de dias com tédio mesmo com 3 crianças e um baby na barriga - podem acabar nos arrancando suspiros de agradecimento e felicidade.

Deitada, sentindo o bebê mexer, meu "tédio" favorito ultimamente, chega na beirada da cama, um certo menino magrelinho com cabelo enorme que já deveria ter sido cortado, eu sei. Trás debaixo do braço um lancheira térmica que ele transformara em "mochila de trabalho". Ele quer ser como eu e o pai somos, ainda admira cada detalhe nosso, coisa que aos poucos vai escasseando, até chegar à adolescência quando, imagino eu, não serviremos para nada, pelo menos aos olhos deles. 
Chega de mansinho, mostra o celular inventado com bloquinhos de madeira, a carteira com dinheirinho de mentira. Coloca um fone que já está quebrado no ouvido, dá um beijo doce e avisa que está indo trabalhar. Finge abrir a porta de um carro de mentira, manobra dentro do quarto, bem em frente a minha cama, tomando todo o cuidado para não trombar em nada e sai acenando para mim.

Dia desses, ao me ver cuidado da irmã, disse:

- Quando eu crescer serei um bom pai, mamãe.
- Eu sei, meu filho.  - E sei mesmo! Tenho certeza disso.

Já até adotou uma bonequinha que era da Luiza! Anda com ela para todo lado. Arrumou uma bolsa, carteira velha e encheu de cartões e moedinhas que ele catou por aí. Está brincando de ser pai. Em um dos bolsos da carteira, encontrou um coração de papel, guardou com todo zelo e cuidado.

- O que é isso, Bernardo?
- É o meu coração, mamãe. Vou dar ao meu amor!
- E quem é seu amor. - Pergunto esperando que a resposta fosse eu.
Que nada!
- Meu amor morreu, mamãe.
Acabo de descobrir que meu filho é viúvo! Coitado, tão novo...
Seguro o riso para não ofender. Vai saber...
- Aí eu vou guardar meu coração aqui - disse guardando no bolso da carteira - e esperar para dar meu coração para alguém. - Disse enquanto saia para levar sua filha ao cinema, que no caso é a sala onde passa desenho animado na TV.

Deixou-me aqui abandonada, encafifada, nostálgica e confesso, um pouco confusa sem entender até onde vai minha própria inocência a maturidade dele. 
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terça-feira, 12 de junho de 2018

Era para ser uma declaração de amor

A bolsa estourou. A calma enfim me invadiu. Era chegada a hora. A hora que eu tanto esperava.

A  chegada de um filho é ao mesmo tempo desesperadora e ansiosamente aguardada. Estava calma para te acalmar. Disse que ficaria bem porque sabia que era este teu medo. Pela primeira vez na vida, depois de quatro gestações e um aborto você não poderia ficar ao meu lado, segurar minha mão, fazer piadinhas com os médicos enquanto faziam o parto, ouvir o chorinho e carregar no colo antes de mim. Pela primeira vez, você não conseguiria se apresentar:

- Oi, é o papai! - Como você sempre fez. 

E não seria dos seus braços que eu pegaria nosso filho pela primeira vez. Os apelidos ridículos que você inventa eu só ouviria bem mais tarde. E riria secretamente, depois de brigar contigo, é claro. Essa minha braveza te mata de amor, não é mesmo? Não diga que não! 

Naquele dia eu desejei te ter por perto, senti falta das suas mãos nos meus cabelos, massageando minhas costas, dizendo que estava linda, mesmo com os quilinhos a mais que você insiste em não ver. 

Ali sozinha na sala de espera, todos olhavam para mim. Deviam se perguntar porque eu estava sozinha, onde estaria quem me amasse. A ajuda estava a caminho, mas os seus braços eu não pude ter para me esconder, apartar um pouco da dor, de todas as dores. Você sempre consegue apartar...

Prometa-me nunca mais ir embora, ok? Prometa-me estar por perto, sempre por perto! Nem ouse furar sua promessa! 

Não esqueça dessa minha braveza. Ela te mata de amor, sim, porém posso te matar literalmente, viu?
E isso era para ser uma declaração de amor! 
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quarta-feira, 6 de junho de 2018

Ainda não aprendi o "até logo", nem que seja só até amanhã de manhã...


Ensinei desde sempre meus filhos a terem autonomia. 


Ensinei a caminharem sozinhos, a dar conta do que quer que fosse sem precisar de mais ninguém. 
Claro, sempre estive aqui, ao lado. Sempre fui a sombra logo atrás sobrepondo muita vezes a sombra deles na hora da angústia, do colo pós queda, na hora da raiva aflorada para acalmar o coração.

Custei a entender essa lição, de que deixar os joelhos ralarem de vez em quando não me fazia uma mãe ausente ou displicente, mas alguém que criava os filhos para serem pessoas fortes, crianças que entendiam o tamanho da importância de se levantarem do chão e seguirem em frente. Sempre quis que eles entendessem que isso faz parte da vida. Não é motivo de chateação ou vergonha. Afinal, quem nunca caiu? Dá sim para rir dos próprios erros. Dá sim para olhar para frente, sem nem ao menos olhar de lado quem observa seu fracasso, porque isso sempre terá, não é mesmo? Sempre haverá alguém olhando, nos vendo cair, analisando qual será nossa reação, sendo ela positiva ou negativa, o julgamento sempre vem. Então ensinei - e continuarei a ensinar - a olharem para si mesmos, para os que os amam e para frente, sempre em frente. 

Expliquei que apesar de tudo, todos precisam de espaço e que ele fosse respeitado para que o seu também fosse sagrado. Mostrei na prática que chorar não é motivo de vergonha, mas uma prova de que às vezes os sentimentos são fortes demais para ficarem guardados no peito. E sim, mamãe e papai também choram e precisam de colo. E eles sempre souberam me dar, que ironia de vida! 

Desde cedo, eles tiveram a cama separada da minha, não que eu ache errado compartilhar espaço e cama, não! Eu apenas não conseguia. Experimenta dormir com uma criança hora chutando suas costelas, hora subindo em cima do seu rosto para você ver... Nunca foi meu forte abrir mão deste meu conforto, pelo mesmo motivo que ensino a respeitarem os sentimentos dos outros, empatia sempre foi meu forte e queria ensinar isso a eles também. 

Suas responsabilidades sempre foram "suas". Do dever de casa ao brinquedo que some por falta de organização, tudo isso serviu de aprendizado para que organizassem suas vidas e cobrassem seu bom resultado, não por mim, porque eu mandei ou gostaria que fizessem assim ou assado, mas porque era importante que se saíssem bem por eles mesmos, por mérito próprio. 

O que afinal ninguém nos explica é que mesmo ensinando que devem caminhar sozinhos, claro, nunca esquecendo o caminho de casa, eu como mãe, nunca aprendi a caminhar sozinha. É na calada da noite, enquanto dormem tranquilos, que invado o quarto, deito junto e compartilho a cama que lutei para que não gostassem. É o cheirinho daquele edredom que me acalma a alma. A respiração ritmada que me aquieta o coração. 

Sim, eu ensinei a terem autonomia, a serem independentes e seguros de si. Mas eu mesma, não consigo seguir em frente. São minha força e coragem. São meu refúgio e segurança. São minha certeza que o dia seguinte será mais leve e feliz. E o que seria de mim, sem este colo para me refugiar? Como olhar para frente, se a visão que mais me dá força está aqui de mãos dadas comigo, pouco abaixo do meu peito, só para ficarem mais pertinho do coração?

É... Ensinei bastante coisa, mas mamãe não aprendeu ainda a lhes deixarem ir. Ainda não aprendi o "até logo", nem que seja só até amanhã de manhã...
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terça-feira, 29 de maio de 2018

Para o riso, para a memória, para a saudade




“A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre...”
Boneca Emília, do Sítio do Pica-Pau Amarelo

Tente piscar pra traz por um momento. Vai piscando até se ver correndo com os pés descalços no quintal da primeira casa de que se lembra, atrás do primeiro amigo de que se recorda. Até um tempo em que o teu mundo inteiro tinha só uns poucos metros quadrados, onde você conhecia cada buraquinho de chão com tesouros escondidos. Um tempo em que a vida era simples e éramos todos apenas filhos. Tenho certeza de que se você voltar tempo o suficiente, acabará reencontrando o teu brinquedo predileto. Tua boneca com vestido azul, tua coleção de bolinhas de gude, teu carrinho de rolimãs ou o jogo de futebol de botão. Aquele cartucho velho do Mário. A bicicleta com cestinha. O robozinho de pilha que piscava colorido. Quando você lembrar, será o melhor sorriso do teu dia.

Sorri assim que o ví. Lá estava ele, como novo, dentro de um balcão de vidro. Meu brinquedo favorito! Eu tinha pouco mais que a idade do meu filho, quando o vira pela última vez. Foi como se o tempo derretesse e, numa piscadela só, eu me vi criança. Segurei meu garotinho pela mão, ainda arredio de ir brincar no pátio com seus iguais, e andei por prateleiras inteiras feitas só de lembranças. Sempre achei que o tempo é nossa moeda de mais alto valor e que os únicos bens valiosos o suficiente, para merecerem ser comprados com o tempo, são as lembranças. Se assim é, então lá estava um pequeno tesouro, guardado naquele casarão, bem ali na Afonso Pena, bem do lado da minha padaria favorita. Fotografei o tempo todo, ciente de que nenhuma daquelas fotos precisaria de legenda.



Como é poderosa a nossa relação com o brinquedo. Um amplificador da imaginação, que em uma mente incapaz de permanecer entediada, ganha vida e cresce até ficar maior que nós mesmos. Basta observar nossas crianças por um momento, para perceber essa maravilhosa transformação simbiótica entre a criança e o objeto. O Museu dos brinquedos de Belo Horizonte existe justamente para celebrar essa amizade: Um museu para a alegria das manhãs, para o riso, para a memória, para a saudade, como é descrito no website. A coleção é rica em peças do século XX, mas também leva o visitante em uma viajem interativa pelas origens de cada brinquedo, até esbarrar nos dias atuais.

Entre os exemplares mais reconhecíveis, estão lendas como o Topo Gigio, Os Playmobil, as garrafinhas da Coca Cola e o console Atari. Bonecos baseadas em sucessos da TV e Cinema, como Família Dinossauros e ET. Há uma sala dedicada a história dos brinquedos, onde se pode localizar geograficamente, no mundo, cada brincadeira. Uma incrível coleção de bonecas antigas, onde é bem difícil não reconhecer a que você já chamou de sua. E muitos ambientes interativos onde os pequenos podem brincar de verdade.



Todos os dias têm visitas guiadas e é bem comum esbarrar com uma excursão escolar. Aos fins de semana tem brincadeiras tradicionais para os pequenos, em uma área externa bem ampla e equipada, além de oficinas de construção de brinquedos artesanais. Tudo acompanhado por um time de monitores motivados, cuidadosos e especialmente atenciosos com os menorzinhos. É possível, também, fazer a festinha de aniversário lá, por valores bastante atraentes.

Me chamou particularmente a atenção o atendimento de toda a equipe, a atenção que se recebe durante as explicações e o sentimento de orgulho perceptível, de quem entende a importância da história que está sendo contada ali. Ao sair de lá, fiquei com a sensação de que estive em um lugar muito maior do que de fato era. Um lugar onde cabe o mundo particular de todos nós, como se fosse o quintal da casa de nossos pais, onde espalhávamos nossos brinquedos e amontoávamos nossas melhores lembranças.



O Museu fica na avenida Afonso Pena, 2564, Funcionários. Abre para visitação de segunda à sexta entre 9 e 17 horas e aos sábados e feriados das 10 às 17. A entrada inteira é R$ 24. Mais informações pelo site museudosbrinquedos.org.br ou pelo telefone 3261 3992.



Carlos Resende, Pai em Construção, para o “Uai, Mãe?!”, direto do Museu dos Brinquedos de Belo Horizonte





CARLOS RESENDE
Engenheiro, tecnologista de materiais para construção, sou marido da Josy, padrasto do Bruno e Pai do Heitor. Todas estas funções me pegaram de surpresa e tive que me virar para fazer jus a cada uma delas. Principalmente esta última. Cara! Como é difícil esse negócio de ser Pai! Não posso dizer que não sabia, mas posso dizer que tem muita coisa que ainda não sei sobre isso. Mas eu vou acabar aprendendo, uma por uma, todas as manhas dessa profissão / sacerdócio / vício / pesada... E aí conto elas aqui. Por falar nisso, que legal esse espaço, não é? Finalmente um lugar para os Papais, entre tantos lugares para as Mamães. A gente se vê por aí!
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sábado, 26 de maio de 2018

Como falar de política com crianças?





É muito comum hoje em dias as crianças quererem se envolver nas conversas de adultos, diferente de nós que quando éramos "pequenos", não gostávamos da vida dos adultos, mas felizmente ou infelizmente as crianças mudaram.

Os tempos da nossa política não são os melhores, os noticiários não param de falar nas crises, não somente econômica, mas principalmente política que vem nos deixando com um pouco de esperança de mudanças e ao mesmo tempo descrentes de um futuro promissor.

Aí que vem a dúvida: como explicar para as crianças tudo que está acontecendo e como ajudá-las a compreender a complexidade da política para que mais tarde sejam elas a mudança que esperamos? Calma, não precisamos nos desesperamos com isso!

Buscando especialistas, foi possível entender que o mais indicado é não forçar as crianças a saberem os conceitos e os reais motivos para tudo que está acontecendo nem sequer explicar porque Fulano ou Ciclano foram presos. Espere os questionamentos e tente explicar com naturalidade e de forma imparcial, pois tentar enfiar na cabeça da criança que o candidato X não presta ou que não gosta do Y é como estar doutrinando as crianças e acreditarem numa verdade que elas não conseguem ainda compreender. Então tente ser imparcial ao falar de um problema político.

As crianças quando começam a perguntar sobre tudo, tendem a questionar qualquer coisa que soa diferente, como o que é presidente da república, o que é congresso, impeachment, etc. Para não frustrar elas, o legal é tentar associar os conceitos da política com a realidade das crianças, como associar o congresso como a mesa de jantar onde os pais discutem a rotina da casa e tomam decisões sobre o futuro da família e o presidente da república são os pais e mães que precisam cuidar das coisas para que tudo funcione conforme o esperado, assim elas vão tendo a noção de que tudo não passa de uma divisão de responsabilidades e que a política faz parte de nosso cotidiano.

Lembrando que política e religião são assuntos difíceis de discutir em um ambiente onde pessoas divergem as ideias, para as crianças é importante a construção da opinião e não a imposição da sua visão para que mais tarde elas sejam capazes de opinar e buscar conhecimento aprofundado para decidir o futuro da política.

Por serem sempre ligadas nas conversas de adultos, é importante, ao estar em uma roda de amigos ou da família, saber ponderar o vocabulário e o tom da discussão quando as opiniões divergirem para que na cabeça da criança uma conversa política não seja sempre uma guerra como vemos muito nos dias de hoje principalmente nas redes sociais onde as pessoas se atacam de forma exagerada e não possuem mais discernimento para conversar de forma pacífica e aos poucos elas podem ir quebrando esse paradigma de que política e religião não se discute, muito pelo contrário, é através das discussões que chegamos nas melhores soluções para um bem comum.



Existem algumas iniciativas de tentar traduzir para a linguagem infantil a nossa história política como o exemplo do livro "Quem manda aqui?" que posse ser baixado no link: https://livroquemmandaaqui.wordpress.com/ e retrata um pouco da nossa trajetória política de uma maneira lúdica e leve para que a cabeça das crianças não fica mais confusa.

E você já se deparou com uma pergunta das crianças sobre política? Como foi?




ADAYLON BORGES
Nascido em Brasília, casado e pai de duas meninas, é apaixonado pela família e por tecnologia. É um Nerd por profissão e procura utilizar as tecnologias de forma positiva para auxiliar na educação das filhas e para impactar pessoas no mundo. Acredita que ser a cara do pai é mais que parecer fisicamente, onde o mais importante são os valores passados e o amor transmitido.
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