quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Meu filho é mais feliz nos meus braços

Sei que fomos criadas com aquela velha máxima de não criarmos filhos mimados, para isso...

- Deixe chorar! Ninguém nunca morreu por isso.
- Você vai acostumá-lo mal.
- Ele tem que entender que vida não funciona assim.
- Ele não pode ter tudo o que quer na hora que quer.

E por aí vai.

Eu sempre tive medo disso. Medo de criar filhos frágeis demais, que quando crescessem não saberiam dar um passo além sozinhos, por conta própria. Confesso que algumas vezes, tomada pelo cansaço, às vezes isso me passa pela cabeça, de que estou fazendo tudo errado em sempre estar por perto para salvar.

Eis o desafio da vez: encontrar o equilíbrio entre liberdade, independência e criação com apego.

A verdade, minha gente, é que meu filho é muito mais feliz no meu colo, dentro deste meu ninho muitas vezes imperfeito, desajeitado e extremamente cansado. Eu, portanto, também sou feliz assim.

Sempre achei tão piegas a frase - me desculpe se você foi o autor - "não é o berço que tem espinho, é seu colo que tem amor". Como acho isso chato! Ter que dar colo, o tempo todo, sem levar em conta o nosso amor próprio, nossa sanidade, saúde, grau de desespero ou cansaço. Sejamos sinceras, vai... Cansa, realmente. Romantizar todo este sacrifício tortura tantas mães, nos tira o sono, nos perturba e desnorteia. Nos sentimos péssimas mães ao compararmos com mulheres que dizem ter ficado a noite toda acordadas e mesmo assim levantarem às 6h para malhar. Mulheres que dizem estar tudo bem dar conta de tudo com perfeição, quando no auge dos meus 31 anos e quatros gestações, eu sei que não está. Por favor, mães, não façam isso umas com as outras. Compartilhem suas vitórias sim, mas não esqueçam de contar o quanto caminharam para chegar até ali. Contar suas derrotas, seu cansaço e seus limites não mostram que você é pior, mas que é humana. Limitada, às vezes com medo, outras com a força e garra de um tigre. Outras mães verão que suas limitações são parecidas, irão se identificar, se unir, procurar soluções em conjunto, discutir o assunto, acolherem umas às outras.

Realmente, nesta minha saga do colo, eu preciso dá-lo. Eis meu último bebê, minhas últimas dobrinhas e bafinho de leite. Meu último olhar admirado enquanto mama, meu aconchego e sono da tarde compartilhado. Eu preciso aproveitar, porque tudo irá passar e só agora descobri o quanto realmente é veloz o tempo, principalmente o perdido tentando conquistar uma perfeição inventada por tantas outras mães que na verdade, sentem medo de assumir o quanto estão exaustas.

Se meu filho hoje está mais feliz nos meus braços, eu sou feliz também. E não, isso não é nenhuma romantização da minha parte. Já passei da idade e do tempo para isso. Só quero aproveitar cada segundo que me resta antes que ele cresça e não caiba mais nos meus braços.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Caso eu não volte hoje a noite - 2º Parte

Ei, Psiu... Se você quer saber da história completa, clica aqui ó.
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Sentia muita dor, mas menti estar ótima. Abri um belo sorriso e pedi para ir embora. Dormir, amamentar e ser cuidada dentro de um hospital, por mais estranho que seja, para mim era complicado. Me sentia esgotada e precisava realmente descansar em casa. Após a alta médica o combinado era ir para a casa da minha avó para que ela cuidasse de mim. Claramente, ela já sabia de toda a história do parto. Bati o pé em casa, passei a noite e logo pela manhã já peguei estrada para meu retiro de descanso que ficava 40 minutos aqui de BH, onde esperava passar pelo menos um mês de repouso.

Logo que cheguei, almocei normalmente, sentei, conversei e me esqueci da condição física em que me encontrava. De repente a dor. Muito forte. Fui deitar para descansar. Cometi o erro de deitar completamente na cama. Resultado: Uma dor incrivelmente forte do meu lado esquerdo, parecia uma facada toda vez que me movia. Estava em um quarto isolada e não conseguia me levantar, gritar por socorro, nem me mexer que a dor era alucinante. Comei a gemer e chorar por ajuda, reunia força e gritava. Até que alguém ouviu. Todos vieram me socorrer. Eu só gritava de dor e chorava. Luiza e Bernardo que estavam comigo, assustados. Creio nunca terem me visto tão frágil.
Sempre me fiz de forte. Mesmo na morte da minha mãe. Sempre foi a que aguentava tudo. Engolir a vaidade e se deixar ser cuidada e acolhida dói porque assumimos ali nossa limitação, a fraqueza. Queremos ser fortes o tempo todo, queremos caminhar sozinhas, mas às vezes não conseguimos. A verdade é que eu não teria dado nenhum passo a frente se não fosse pelo apoio das pessoas ao redor, o braço estendido para me levantar da cama, a ajuda até para banho e vestir roupa. Minha avó no auge dos seus 70 anos, praticamente me carregando. Que mulher! E eu querendo ser forte como ela, ali limitada, doente e a bem da verdade, eu só queria colo. Apenas colo e compreensão.
Minha outra tia também formada em enfermagem - sim, eu tenho sorte - me ajudou naquele momento, acalmou, aconselhou. Passei os dias com dor, à base de dipirona e comidinha de Vó. No 3º dia, comecei a passar mal. Muito mal. Um enjoo absurdo. Estávamos recebendo a visita do meu tio - sim, eu tenho a família enorme - . Comecei a vomitar, sem motivo algum. Minha avó querendo agradar saiu e comprou todas as frutas possíveis que encontrou , fez meu prato preferido no almoço, mas nada parava no meu estômago. Me sentia fraca, não conseguia andar de fraqueza. E precisava amamentar. Era questão de honra, de princípios, de amor e superação conseguir amamentar. Eu não abriria mão.

Lembro de grogue, pedir ajuda para sentar, os braços trêmulos da minha avó me pegando pela cintura, me sentando na cama e colocando o João no meu peito. Lembro de precisar de apoio para não cair, mesmo sentada, porque me faltava força até para segurar meu filho. Lembro de ver minha avó sair chorando do quarto. Lembro da mão dela pelos meus cabelos:
- Sheilinha, você quer ir para o hospital? Você vai acabar morrendo aqui enquanto amamenta seu filho.
- Sim, Vó. Eu quero.
Em 30 minutos estávamos pegando estrada novamente em direção ao hospital. Chegando, fui medicada, disseram ser normal e me passaram um remédio para dor mais forte que Dipirona. Nesta nova alta, formos para a casa da minha avó que fica aqui em BH mesmo. Lá descansei, amamentei, cuidei um pouco dos meninos. Fui melhorando, no 10º dia fui ao posto de saúde do bairro que ficava uns 4 quarteirões dali com João e Luiza. Bernardo já havia voltado para casa, não podia mais faltar a aula. Mauricio cuidava dos meninos e da casa sozinho enquanto minha avó cuidava de mim, da Luiza e João.

Chegando ao posto, minha pressão caiu e por um segundo quase desmaiei. Minha avó teve que ir correndo me socorrer porque eles só fariam qualquer procedimento se eu estivesse acompanhada.
Ao entrar na sala para retirada dos pontos, cadê os nós? Quando me aconselharam a voltar no hospital, uma crise de choro.
- Você está cansada, não é? - Perguntou a enfermeira.
- Exausta. Deixa eu chorar um pouquinho aqui, aproveitando que estou sozinha para minha Vó não ficar triste.
Ao sair, ela perguntou se tinha acontecido alguma coisa, e eu cai no choro novamente. O plano não funcionou.
Voltei ao hospital no dia seguinte. Lá tiraram uma parte dos pontos, porque realmente um dos nós havia sumido. Eu poderia viver com ele para sempre, numa boa.
O porém nisto tudo é que desde que voltei da primeira ida ao hospital por causa da primeira crise, ao trocarem o remédio de dor, percebi que sempre às 18h eu sentia frio, muito frio. Me deitava para descansar e acordava com a cama ensopada de suor. Cheguei a comentar dizendo que poderia ser febre. Reclamei inclusive com a equipe médica naquele dia. Não me levaram a sério. Pediram para eu fazer um exame de sangue para descobri o motivo porque não era relacionado à cirurgia. Fiz o exame. No dia seguinte, Mauricio pegaria o resultado.

Depois de uns dias, minha avó precisava voltar para casa e eu precisava retomar minha vida ou pelo menos parte dela. Luiza estava sofrendo muito pela falta do pai e dos irmãos. Chorava muito, todos os dias. Graças ao trabalho do Mauricio conseguimos uma permuta com um hotel pertinho da minha casa. Eu ficaria lá até me recuperar melhor. Antes, passei em uma farmácia. Queria provar que os médicos estavam errados. Comprei um termômetro e passei a medir de hora em hora minha temperatura.
Dois dias depois minha barriga havia quase desinchado completamente, exceto por um ovo do tamanho de um melão do lado esquerdo do meu abdômen. Era esquisito e quando tocava doía demais. Com o resultado do exame de sangue em mãos, tirei uma foto e enviei para minhas tias. O médico do trabalho delas, ao bater o olho disse para eu ir imediatamente para o hospital.
- Sheila, corre agora para o hospital. Não pode ser amanhã. Tem que ser agora.
Isso foi logo após o almoço. Me arrumei e fui. Ao chegar, mostrei minhas anotações. Todos os dias febre de 39ºC sempre no mesmo horário. Ela estava sendo camuflada pela dipirona que tomei por tanto tempo, mesmo quando ainda estava internada, por isso nunca foi diagnosticada. Deitada na maca, três médicas apertam aqui, apertam dali.
- Olha, você vai ter que ficar internada. Você provavelmente contraiu alguma bactéria no hospital e se não tivesse voltado rápido poderia parar na sua corrente sanguínea e causar a morte. Se você tivesse deixado para amanhã talvez não teria tanta sorte.

Mais uma crise de choro. Olhei para o João. Ele mal conhecia nossa casa. Meus filhos eu não via direito há 15 dias. Eles sofriam, Luiza chorava na escola e não queria fazer mais nada. Bernardo e Samuel também iam mal. Era coisa demais para o Maurico resolver. Cuidar de três crianças, a casa, os cachorros, esposa doente, um recém nascido e o trabalho que ele precisava manter para nos sustentar. Eu só queria voltar para casa.

- Liga para minha Vó, Zeca. Eu preciso dela aqui. - E ela voltou para cuidar de mim mais uma vez.
Fizeram um ultrassom, no aperta-espreme-puxa-repuxa do exame eu chorava de dor. Ao chegar no quarto e me sentar para amamentar o João, alguma coisa estourou. Minha cirurgia abriu completamente e todo liquido da infecção foi saindo. Os médicos pareciam felizes. Eu achei que ficaria mais uns dois dias tomando remedinho e voltaria para casa. Mas então começou a confusão: parte da equipe achava que eu precisar reabordar (termo fdp que eu aprendi lá)  a cirurgia para limpar por dentro, outra achava que só os antibióticos já fariam efeito. Lembrando que estava amamentando
e João tomando aquela bomba de remédio todos os dias através do meu leite acabou tendo reação, ficou todo empolado. Um dia de tarde, uma médica me falava para entrar em jejum que no dia seguinte ia fazer a cirurgia. Eu ficava 15, 16 horas em jejum, depois de muito brigar porque eu estava amamentando e o leite escasseando, outro médico vinha e dizia que não era necessária a cirurgia.

Fizeram isso por dois dias. Virou uma bagunça mesmo quando minha família inteira, diante do sofrimento que aquilo nos causava, veio ao hospital pedindo que resolvessem logo a situação.
Engraçado como somos frágeis, não é mesmo? Eu não tinha voz nenhuma. Não tinha força para brigar, falar mais nada. Então ainda bem que fizeram isso por mim.
Resolveram enfim abrir a cirurgia.
Ao voltar para o quarto, o susto: Minha barriga estava completamente aberta. Isso mesmo. Um palmo de corte aberto e eu viva.

No quarto, estava no horário de visitas, a enfermaria lotada. A equipe médica chega e me explica que por ser uma bactéria teriam que deixar aberta para que elas não proliferassem mais. Ok, né?
- Deixa eu tirar o curativo.
- Hãããaã?
- Preciso ver o curativo. - Disse a médica.
- Eu estou com muita dor - a anestesia estava passando e a dor era muito forte.
- Vamos aplicar uma injeção que vai melhorar. - Disse enquanto tirava as ataduras. Ela olhando, olhando. Até ali ok. - Ele deixou uma atadura dentro, né? - perguntou para um dos enfermeiros que acenou positivo. - Eu tenho que tirar.
- Como assim tirar? Que loucura! Você não pode tirar nada daí não. Eu vou voltar para o bloco cirúrgico?
- Não. Vai doer não. É só puxar. - Disse ela já enfiando a mão dentro da minha barriga.
Ela simplesmente enfiou a mão inteira dentro de mim e puxou a atadura. Eu gritei de dor, chorei, implorei. Minha avó assustada, o quarto lotado de crianças e pessoas visitando as outras mães recém paridas. Eu chorava de dor. A médica não satisfeita, ainda mandou a enfermeira me sentar na cama. Eu implorei para não sentar. Ela não se importou em me obrigar, minhas pernas ainda não respondiam. Ela aplicou sem meu consentimento a injeção que doeu mais do que a dor que eu sentia. Aí eu comecei a brigar:
- Que dor fdp! Era melhor ter ficado com a outra dor. Já não estou sofrendo o suficiente? Não quero mais tomar porra nenhuma!
Mediram minha febre. 35ºC. Alguma coisa estava errada. Neste ponto minha Vó tinha saído do quarto, trêmula por ter assistido a tudo àquilo. Ela ligara por o Mauricio:
- Maurício, você precisa vir aqui agora. A Sheila não está bem não. - E desligou.
Era uma sexta-feira, no domingo o Dia das Mães.
Sentada na cama sozinha, sinto algo quente, ao olhar para baixo, um mar de sangue. Corre-corre dos médicos. Eu estava tendo outra hemorragia. Me levaram ao bloco novamente. No corredor cruzo com minha avó com o João nos braços que berrava de fome. Não falaram nada para ela, simplesmente disseram que eu estava bem.
- Bem? Minha neta não está bem. Eu vejo que não está. Eu liguei para todo mundo. Daqui a pouco vocês terão que explicar para toda a família isso que vocês estão fazendo. Se não respeitam pelo menos minha velhice, terão que responder pelo que estão fazendo com ela.

Desta vez, nada de anestesia. Eles aplicaram apenas uma local e bastante morfina que só serviu para me deixar grogue. Enquanto um segurava minha perna, aquela mesma médica que havia tirado a atadura, com a ajuda de outra, abriu minha cirurgia com as mãos, deu três pontos na parte da hemorragia e ainda limpou todo o ferimento. Eu ali, grogue e imobilizada não podia fazer mais nada. Só sentir dor. E sinceramente, deu saudade das contrações do parto. Fechei meus olhos e visualizei o rostinho de cada filho meu, que saudade! Isso me manteve firme, me deu forças.

Ao voltar para quarto minha Avó contou das ligações que havia feito. Peguei o telefone e liguei para o Mauricio.
- Ele acha que eu morri, Vó.
Quando ele atendeu, o susto em ouvir minha voz me fez perceber que ele realmente achava isso. Ao chegar, desabou no choro.
- Achei que tinha perdido você. Fui buscar os meninos na escola, eles estavam com o presentinho de Dia das Mães. Estavam tão felizes. Como é que eu ia explicar que eles não poderiam mais entregar os presentes?

Em certo momento pedi que minha avó tirasse uma foto para que eu visse o corte.
- Você promete que não vai chorar?
- Vou não, Vó.
Ela tirou e me mostrou. Não consegui controlar. Chorei litros. Me senti mutilada. Naquele segundo fiz algo que até hoje me dói muito mais do que qualquer dor que tenha sentido. Por um segundo olhei para o João e pensei que se não tivesse engravidado dele, nada daquilo teria acontecido. Os outros meninos não estariam sofrendo, eu não teria passado tão perto da morte e trago tanto sofrimento a quem me ama. Naquele segundo fui um lixo de mãe.
Hoje eu me lembro daquilo e tento colocar na balança tudo o que passei para ter ele nos meus braços, ao olhar para corte hoje eu enxergo marcas de guerra, a batalha mais difícil que tive que lutar só para ter o tenho agora.

Depois de muita confusão por causa da forma que fui tratada. me deram alta com o corte aberto mesmo. Disseram só para eu cuidar bem dele e após alguns dias eles avaliariam se seria fechado cirurgicamente ou sozinho, dependendo da evolução. As enfermeiras, tão amáveis, as outras mães, todos que viram o que eu estava passando choraram de alegria. Eu não conseguia chorar de alegria, associei qualquer choro ao sofrimento. Eu só queria sorrir.

Eu e minha avó voltamos para o hotel. Passamos três dias lá, depois ela teve que voltar para casa. Eu voltei para a minha. A casa aquele mafuá. Os meninos carentes de mãe e minha culpa nível master. Porém feliz. Muito feliz. Dor? Nenhuma. Era muito estranho não sentir dor em um corte daquela proporção, mas realmente eu não sentia nada. Tinha que manter os antibióticos e evitar esforço físico.

Depois de alguns dias começou a saga "fecha - não fecha". Parte da equipe médica achando que deveria fechar a cirurgia, a outra achando que deveria ou esperar um prazo maior para cicatrização ou deixar que fechasse sozinho. Resolveram fechar de vez. E após quase 30 dias hospitalizada, entrei pela ultima vez no bloco cirúrgico. Pela ultima vez ouvi meu filho chorando de fome do lado de fora enquanto eu estava sendo operada. Sai de lá com mais uma cirurgia para me recuperar, mas esperançosa em nunca mais voltar.

Sim, eu sei. A história foi longa, talvez cansativa. Mas precisava contar. E isso foi um resumo do que realmente vivi. Foram dias tensos, tristes, difíceis. Pude ver quem realmente se importava, reavaliar parcerias, amizades, propósito de vida. Pude enfim viver meu puerpério, como qualquer mulher recém parida. Finalmente cuidei do meu bebê, dei banho, ensinei dever de casa aos outros enquanto amamentava. Fiz o almoço, dormi acompanhada e segura.

Alguns dias depois em uma crise de choro por causa do cansaço que cuidar de quatro filhos acarreta, disse para mim mesma:
- Eu não consigo, não aguento mais.  - E por um segundo um filme de tudo o que passei veio à mente. E naquele segundo me senti ridícula em pensar assim. Enxuguei as lágrimas certa que lá atrás quando eu achava que me faltava o parto normal para me sentir forte, eu não sabia o quanto eu já era invencível.


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terça-feira, 20 de novembro de 2018

Caso eu não volte hoje a noite - 1º parte

O título eu escrevi quase um mês antes do parto. Passei todo o ultimo trimestre com um pulginha atrás da orelha. Sonhei ter morrido milhares de vezes, fiz meu marido ouvir o velho discurso "caso alguma coisa aconteça". Listei como gostaria que meus filhos fossem criados, toda a ideologia e ideias loucas que me regem, me certifiquei até que ele aprenderia a como prender o cabelo da Luiza, ensinei o básico da cozinha, certa que no fundo, caso alguma coisa acontecesse, eles viveriam de miojo, empanados de frango e pizza congelada. Expliquei que gostaria que eles soubessem como outras crianças viviam, que fizessem trabalho voluntário para ajudar quem precisa, pedi que não afastasse o resto da minha família da vida deles, mas que em nenhum momento deixasse que eles tomassem as rédeas. Meus filhos, eram na verdade, nossos! Só nossos! Frutos de muito amor, sacrifício e uma esperança profunda de que tudo daria certo. Luta diária nossa para alimentá-los, cuidar, ensinar, regar e vê-las crescer não apenas em estatura, mas em caráter. Que eles fossem muito melhor que nós fomos e pelarmor de Deus, meu bem - eu disse -, não deixe que eles esqueçam de mim, conte como nos conhecemos, como fomos loucos em "casar" em apenas um mês de relacionamento mas não encoraje isso, certa que no fundo, filhos nunca ouvem as recomendações , as letrinhas miúdas das embalagens ou a bula dos remédios. Conte minhas manias e mostre tudo o que escrevi para eles verem o quanto foram amados e sonhados.

As semanas seguintes foram de total solidão. De um dia para outro, todos sumiram, alguns por coincidência, a maioria por conveniência. Já devo ter dito o quanto sou prática, mas nunca havia percebido tão claramente como naqueles dias. E após um tempo, eu realmente me lembrei o quanto era amada e que amor consiste em estar por perto quando mais se precisa. No dia anterior ao parto, vi reaparecer quem de verdade se importava.Quando finalmente havia organizado tudo para o parto, desde lugar seguro para os outros ficarem enquanto estou no hospital até roupinhas e supermercado, pensei "enfim posso parir em paz" e dormi por uma tarde inteira feliz por conseguir descansar depois de tanto tempo aflita. Quando as contrações começaram, eu calmamente anotei cada uma na nota fiscal das ultimas fraldas compradas ali jogadas ao lado da minha cama e pensei "por enquanto está tranquilo". Quando a bolsa estourou, meu primeiro pensamento foi "graças a Deus acabou" me referindo à gestação estressante que havia passado, o segundo ridiculamente foi "não quero sujar o lençol".

Me levantei com uma calma surreal e simplesmente disse que ficaria tudo bem. E eu sentia que tudo ficaria bem, uma paz me invadiu e o termo "colocar na mãos de Deus" fez sentido. Se fosse para dar algo errado, não estava nas minhas mãos decidir o caminho. Fui ao hospital com muitas dores, mas em paz. Tranquila e segura. Todo o procedimento inicial foi sozinha. Me lembrei da minha mãe e do quanto ela me fazia falta nestas horas de fragilidade. Tentaram parar as contrações, uma quarta gestação, após três cesáreas seria uma loucura que eu não estava disposta a realizar. Eu não precisava provar nada para ninguém. Ter um parto normal a todo custo, não me interessava. Eu queria parir e voltar para casa. Depois de comprimidos para sessar as contrações e uma seringa enorme de buscopam, tudo continuou exatamente como estava e piorando, para espanto dos médicos. João, nome que mantive em segredo até o parto, queria nascer e bem rápido. Correram comigo para a sala de cirurgia. Não dava tempo para mais nada. Minha pressão chegou a 3 por 6 e eu ensaiei um desmaio. As contrações apesar de dolorosas, não me incomodava, eu sabia que fazia parte, eu parecia anestesiada mentalmente, só meu corpo respondia e eu deixei ele me guiar, seja qual fosse o caminho.
João estava encaixado e saindo, que belo parto normal eu teria se tivesse feito escolhas melhores no passado! E como eu lamentei por isso! Comentei dias atrás que queria muito ter um parto normal, que  sentia, após tantas coisas ruins acontecerem na minha vida e eu ter superado, que só faltava aquilo para me sentir invencível. Mal sabia que o que viria me faria sim, invencível. Que o caminho que trilhei até aqui já me faz forte o suficiente para recomeçar não importa quantas vezes eu caia.

O anestesista teve dificuldade de encontrar brecha entra as contrações que vinham de 15 em 15 segundos (sim, eu contei). Após a anestesia, não havia mais dor física, só a aflição de não saber o que estava acontecendo. Tiveram dificuldades em tirar o João. De repente, choro. Logo depois gargalhadas.
- O que aconteceu? - perguntei para minha tia que me acompanhava.
- Ele fez xixi no médico.
Colocaram ele no meio peito nu, contato pele a pele e por incrível que pareça, ele já caçou leite. Foi igual a uma minhoquinha procurando onde estava. Achou e mamou.
Tudo corria normalmente. Fecharam a cirurgia e na hora no teste para saber se havia hemorragia, o sangue brotou e escorreu pela minha barriga.

Saiu um enfermeiro apressado para a sala ao lado e voltou com outra equipe médica que eu viria saber mais tarde, era o chefe da equipe médica que coincidentemente fazia outro parto ali pertinho ao lado. Ele atestou que era realmente uma hemorragia. Reabriram às pressas e ali começou a saga de procurar o foco. João que mamava tranquilo teve que ser tirado dali.
Fui me sentindo fraca e com sono. Minha vontade era de dormir, mesmo que não voltasse mais. Estava tão em paz. Tão tranquila. Eu não tinha medo nenhum do que viria a seguir, seja o que fosse. Fechei os olhos e fiquei quietinha. Abri de repente:
- Di, só quero que você saiba que os meninos tem que ficar com o Mauricio, tá?
- Quê isso, Sheila!? Vai acontecer nada não.
- Tá bom. Mas caso aconteça, quero que eles fiquem com ele. Não quero briga. Eles são meus e do Mauricio.

Minha tia, formada em enfermagem, acompanhava tudo e pelos olhos dela vi que a coisa não estava boa para meu lado. Ela estava pálida enquanto tentava ninar o João. Me contou mais tarde que eles tiraram meus órgãos um a um e colocaram em cima da minha barriga. Meu útero estava dilacerado. Costuraram como se fosse uma colcha de retalhos. Descobriram que o foco estava nas trompas. Tiraram as duas e me mostraram. Tudo estava controlado enfim. A anestesia estava passando e os últimos pontos que tomei foram a frio mesmo, mas estava feliz por ter acabado.

Fui para o quarto com muita dor. Saí após dois dias de internação. Depois de toda a complicação decidi ir descansar na casa da minha avó que morria de preocupação e já estava cuidando do Bernardo e Luiza para mim. Mal sabia que muita coisa ainda estava por vir.
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Para não ficar muito longo, decidi dividir em dois textos. No próximo eu conto sobre as complicações do pós cirúrgico que me levou a ficar quase um mês internada e a mais três cirurgias, entre idas e vindas ao hospital.
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terça-feira, 6 de novembro de 2018

Ouça seu filho: talvez ele só precise de pequenas mudanças



Como eu já contei por aqui, a minha primeira formação, antes do Design de Interiores, foi a Psicologia. E muito do que aprendi como psicóloga me é útil no meu cotidiano como decoradora. Um conceito da Psicologia que sempre emprego no meu trabalho é a queixa latente, que é aquela queixa não manifestada. Uma dor que o cliente revela nas entrelinhas que, eventualmente, nem ele reconhece que está ali. E para conseguir acessar essa queixa é preciso praticar uma escuta afetiva. Ou seja, ouvir com o coração.

Isso se aplica também na nossa relação com nossos filhos. É muito comum que as crianças não expressem suas reais queixas mas elas estão ali, pulsando. Hoje, iremos focar em algumas queixas que podem ser solucionadas com simples mudanças em casa.

Quer um exemplo clássico? O filho que não consegue deixar a cama dos pais. Quem nunca soube de uma história (ou mesmo a vivenciou dentro da própria casa) da criança que só deixou o quarto dos pais quando chegou um irmãozinho mais novo? Já pararam para pensar no quanto isso pode ser traumático? O ideal é que essa transição seja feita de forma suave e que a criança tenha motivações para ficar em seu próprio quartinho. A queixa latente pode, inclusive ser essa: o quarto da criança não estar tão acolhedor e aconchegante para que ela durma ali. Mas o que fazer nesse caso? Uma ideia muito simples é ter um abajur ou luminária, que permita criar uma cena agradável para a chegada do sono. Não adianta impor que a criança deve dormir às 21h e, nesse horário, o ambiente estar na maior agitação e claridade. É interessante também criar pequenos rituais noturnos. Que tal, por exemplo, colocar livrinhos ao redor da cama e contar histórias antes de dormir? Ou colocar uma musiquinha tranquila para acalmar o pequeno? A cama também é fundamental nesse processo. A criança precisa se sentir segura e o que não faltam no mercado são opções de camas com grandes ou baixinhas, ao estilo montessoriano.

Outra dificuldade com a qual muitos pais se depara é a falta de concentração dos pequenos para estudar e realizar as tarefas de casa. Será que isso não é falta de um ambiente de estudos adequado? Num outro artigo aqui do site já demos dicas sobre todos os fatores que devem ser considerados na hora de criar um cantinho de estudos estimulante e confortável. Vai desde a escolha da cadeira até a iluminação do ambiente.

Outra questão: muitas vezes as crianças se encontram estressadas e agitadas e isso pode ser excesso de eletrônicos e falta de atividades que mexam o corpo. Mesmo para quem mora em apartamento (a realidade da maioria das famílias) é importante criar espaços e situações que estimulem a criança a brincar com outras coisas além dos tabletes e computadores. Uma boa ideia é reinventar um espaço. Transformar, por exemplo, um quarto de empregada ou uma varanda, numa brinquedoteca temporária.

As ideias são muitas. O importante é escutar seu filho com o coração – para ouvir o que não é dito -  e, então, partir para a ação.



FABIANA VISACRO
O interesse por pessoas levou Fabiana Visacro a se formar em psicologia. Seu interesse pela maneira como as pessoas vivem resultou em sua segunda graduação: o design de interiores. Foi assim, com o olhar totalmente voltado para o humano, que construiu uma carreira baseada na qualidade de vida e na relação das pessoas com suas moradas. Assim nasceu a linha de trabalho à qual Fabi chama de “Decoração Afetiva”, algo que se tornou ainda mais forte quando veio a experiência da maternidade. Hoje, Fabi concilia a carreira com uma vida gostosa na casa que ela mesma projetou, em Macacos, onde vive com o marido e as filhas, Gabi e Bebela.
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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Ler é uma forma de ensinar a tolerância


“Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes a vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém à morte. Pois mesmo os mais sábios não conseguem  ver os dois lados.”

É assim que o Gandalf responde a Frodo, em o Senhor dos Anéis, quando este diz que desejava a morte de Gollum. O inimigo que o perseguia em busca do Um Anel era obviamente um perigo, a solução mais fácil para resolver aquele problema imediato que viviam seria matá-lo, mas nem sempre a solução mais fácil é a mais correta.

Tive contato com a trilogia de O Senhor dos Anéis, de autoria de J.R.R. Tolkien, durante a minha adolescência, muitas das minhas amizades nasceram desse interesse, e os livros foram transformados em filmes anos depois. Esse diálogo entre Gandalf e Frodo (respectivamente, o mago sábio que orienta o grupo e o protagonista da obra) é uma das minhas passagens favoritas e sempre a evoco em minha mente quando me deparo com debates sobre pena de morte ou afirmações como “bandido bom é bandido morto”.

No momento atual, em que vivemos um crescimento da intolerância e da violência entre defensores de ideologias opostas, todos nós ficamos preocupados com o futuro, especialmente quando somos pais. Sempre cresci acreditando que meus filhos iriam viver em um mundo mais harmônico e tolerante. Hoje já não tenho tanta certeza, mas a esperança ainda pode estar na leitura e nas histórias.

Um estudo feito com adolescentes na itália mostrou que leitores de Harry Potter tendem a se mostrar mais tolerantes frente aos problemas vividos por grupos socialmente desvalorizados (as erroneamente rotuladas minorias). Ler sobre o conflito da sociedade dos magos, em que um grupo, liderado por Valdemort, busca estabelecer uma lógica de castas, na qual “trouxas” (não magos) e os “sangue-ruim” (magos nascidos de pais trouxas) estariam subordinados aos magos de “sangue-puro” torna crianças e adolescentes mais sensíveis a preconceitos semelhantes no mundo real.

O estudo foi feito em dois momentos. No primeiro, um grupo de adolescentes que não tinha conhecimento da narrativa foi submetido a aulas e leituras sobre a cultura Potter. Em debates posteriores, esse grupo mostrou-se mais tolerante em reflexões sobre homossexualidade, imigração e feminismo, quando comparado a grupos de alunos de origem semelhante que não haviam passado por esse processo. No segundo momento, um questionário foi aplicado a 117 estudantes italianos, com perguntas sobre leitura de livros do Harry Potter e também temas relacionados a gênero e imigração. Novamente, aqueles leitores dos livros de J.K. Rolling mostraram-se mais tolerantes que os demais.

Como todos, eu já sabia da importância da leitura para tantas outras coisas, mas agora, quando me perguntarem o que fazer para tornar nossos filhos mais tolerantes, a minha resposta será “ofereça muitos livros e conte-lhes histórias”. Assim como Tolkien foi fundamental em minha formação e reflexões sobre a pena de morte e vingança (não posso esquecer também da influência do Seu Madruga nessa área), espero oferecer muita leitura às minhas filhas para que elas possam desenvolver a empatia e a compreensão da realidade de outros grupos e culturas.


NOTA: O Marcelo fez um episódio falando exatamente sobre isso. Clica aqui ó e ouça! 

MARCELO CAFIERO
É um pai medíocre das gêmeas Alice e Helena, professor de língua portuguesa e produtor dos podcasts Entre Fraldas e Hiperativo.

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